28 de abr. de 2004

Discoteca Básica
Michael Jackson / Thriller
(1982 Epic 700029)

Uma piada perguntava: "O que é branco por fora, negro por dentro e adora criancinhas?". A resposta, hoje, entristece aqueles que como eu, foram (e ainda são) fãs dele. Entretanto, houve uma época que Michel Jackson [1958- ], nascido Michael Joseph Jackson, não era devorador de criancinhas e se firmou como o maior astro "pop" do planeta.

É desta época o lançamento deste álbum. Lançado depois do admirável trabalho de "Off The Wall" (1979 Epic 746.029/2-450086), "Thriller" (1982 Epic) se tornou o disco mais vendido da história da música. São mais de 40 milhões (sim, 40.000.000!!!) de discos vendidos ao redor do planeta.

O disco tem um pouco de tudo - funk, hard rock, baladas leves e soul music, o que serviu para que atingisse uma ampla audiência. Além disso, colaborou para o seu sucesso, o fato de ser lançado na época que a MTV estava em ascenção. MJ ajudou a rede não só sendo o seu primeiro "superstar", mas também por ser o primeiro astro negro a estreiar na rede MTV. Da mesma forma, a rede ajudou a divulgação do astro.

São ao todo nove músicas excepcionais, sendo difícil selecionar algumas sem ser injusto com outras. A mão mágica de Quincy Jones e arranjos do não menos competente Rod Temperton, que o acompanha desde "Off The Wall", fizeram do álbum um sucesso sem precedentes, tal que no seu lançamento colocou sete das nove músicas no rol das "Dez Mais" (nos EUA).

É difícil ouvir e avaliar Michael só pela voz e a música, pois ele é também um exímio dançarino. A sua voz se completa com a imagem (daí o enorme sucesso do clip de "Thriller", continuamente aclamado como o melhor vídeo de todos os tempos). Isto explica porque, para mim, "Billie Jean" e "Thriller" sejam duas das minhas preferidas e, provavelmente, das melhores coisas que ele já fez na vida (outra é "Smooth Criminal", do álbum "Bad" [1987 Epic 700.765/2-450290]). A apresentação de "Billie Jean" [16/05/1983, no especial da TV sobre o 25º aniversário da Motown], onde usa e abusa do "moonwalking" (que, na verdade é um "sliding") e o clip de "Thriller" são uma evidência da sua habilidade como dançarino e de quanto a música e a dança estão entrelaçadas em Michael.

Destaques também para "P.Y.T. (Pretty Young Thing)", o dueto com Paul McCartney [1942- ] em "The Girl Is Mine" e a participação do virtuoso do "metal", Eddie Van Halen [1955- ] em "Beat It". Completa o álbum um belo encarte de 12 folhas, com as letras de todas as músicas e dois desenhos feitos por MJ, de qualidade duvidosa e que deveriam ter sido mandadados analisar por um psiquiatra há muito mais tempo. Talvez ele não chegasse a ficar tão encrencado como está hoje em dia.

Este álbum foi relançado em 1999 em SACD (esta é imagem da capa que aparece neste texto) e em 2001, em som remasterizado e com duas "bônus tracks". A saber:

Thriller [Bonus Tracks] [ORIGINAL RECORDING REMASTERED]

1. Wanna Be Startin' Somethin'

2. Baby Be Mine

3. Girl Is Mine

4. Thriller

5. Beat It

6. Billie Jean

7. Human Nature

8. P.Y.T. (Pretty Young Thing)

9. Lady in My Life

10. Interview with Quincy Jones [*]

11. Someone in the Dark [*]


[*] Bônus tracks.

Como eu digo: você sabe que está ficando velho quando os seus CDs começam a ser relançados como "edições comemorativas dos 20 anos", :-) ... J.T. Cevallos, 18/04/2004.

= JTC/jtc =

21 de abr. de 2004

Em busca de paz?

Honestamente, conheço muito pouco de Johnny Cash: The Million Dollar Quartet (ao lado de Elvis Presley), Folsom Prison Blues e a participação na canção The Wanderer no disco Zooropa do U2, são alguns dos
momentos de sua carreira com os quais tive contato... o que é muito pouco, se considerarmos a sua extensa discografia. Mas não pude deixar de notar este CD, My Mother's Hymn Book, e falar um pouco dele.

Esse lançamento póstumo fazia parte inicialmente do Unearthed, uma caixa contendo 5 CDs com material raro ou inédito do cantor, lançado após a sua morte em 2003. Felizmente, ele foi acondicionado em um CD à parte e recebeu um nome bem apropriado: "o livro de hinos da minha mãe", pois de outra forma eu provavelmente nunca teria conhecimento dele.

Ao ouvir a voz grave e poderosa de Cash nessas 15 canções, acompanhada apenas pelo dedilhado de um violão, a identificação foi imediata. Hinos tradicionais evangélicos, muitos dos quais ouvi também na igreja durante a minha infância - assim como ele, ao explicar a inspiração destas gravações -, ganham interpretações carregadas de emoção, nostalgia, espiritualidade e devoção. Assim como Elvis, ele costumava gravar discos de música Gospel, ou incluir uma canção cristã nos seus trabalhos, mas com My Mother's Hymn Book, Cash parece pressentir o fim de sua carreira e a necessidade premente de rever momentos tão significativos de seu passado.

Protagonista de uma vida marcada pelo uso de drogas e casamentos desfeitos, talvez Cash estivesse procurando por uma paz que ele sabia estar no coração de canções como When the Roll Is Called Up Yonder, In the Garden, Softly and Tenderly ou Just as I Am. Teria ele reencontrado essa paz novamente, antes de deixar este mundo? Somente Deus poderá responder...


11 de abr. de 2004



Play the Blues...
Lonnie Brooks, Phillip Walker & Long John Hunter / Lone Star Shootout
(1999 Alligator / Caravelas 270.062)

São mais de 200 anos de idade e mais de 100 anos de carreira, reunidos neste CD; o mais jovem (Walker) tem hoje 67 anos de idade. Lonnie Brooks [1933- ] (guitarra e vocal), Long John Hunter [1931- ] (guitarra e vocal) e Phillip Walker [1937- ] (guitarra e vocal), apesar da idade, ou melhor dizendo, graças à idade, exibem o seu talento numa série de músicas que mostram porque foram, nos seus melhores momentos, grandes nomes do blues.

Lonnie Brooks (nascido Lee Baker Jr., em Louisiana), é um dos grandes representantes do "Chicago Blues". Você já deve ter ouvido alguma coisa dele, talvez com o nome de "Guitar Junior", como ele se apresentava. Long John Hunter, também de Louisiana, foi uma lenda local por muito tempo. Ainda na ativa (como os demais) é um grande representante do "Texas Blues". Seu contrato com a Alligator (1997 - Border Town Legend) e a Doc Blues (2003 - One Foot in Texas) podem ampliar a sua fama. Com uma carreira menos abundante que os demais, mas igualmente consistente, Phillip Walker também é considerado um dos grandes representantes do "Texas Blues" e "Louisiana Blues". Nascido ... adivinhe aonde?... em Louisiana, juntou-se às duas outras lendas vivas (Brooks e Hunter) para gravar, em 1999, este álbum.

O álbum inicia com "Roll, Roll, Roll" um rock clássico, escrito nos anos 50 por Brooks, quando ele era "Guitar Junior". Ele mesmo continua com um boogie-woogie "Boogie Rambler". Existe um pouco de tudo, para agradar a qualquer um. Tem baladas ("A Little More Time"), rock ("Bon Ton Roulet", "You're Playing Hooky"), puro "Texas blues" como em "Feel Good Doin' Bad" (onde brilha a harmônica de Mark "Kaz" Kazanoff), "Alligators Around My Door" e "Street Walking Woman", "swamp pop" em "This Should Go On Forever", R&B ("I Can't Stand It No More"). Mais blues ("I Met The Blues In Person", "It's Mighty Crazy").

O álbum conta ainda com a participação especial de Ervin Charles (guitarra e vocal), em "Born In Louisiana" e "Two Trains Running", lamentos à la Muddy Waters.

Acompanha o CD um belo livreto de 12 páginas, com anotações biográficas (por Michael Point) dos três músicos, créditos e informações sobre cada uma das músicas do CD (por Bruce Iglauer).

Este é um encontro histórico de três lendas do blues. Só isto já seria suficiente. Acrescente o livreto com fotos e recheado de informações e você tem a desculpa perfeita para gastar mais uns trocados numa bela aquisição para a sua coleção de blues. Aproveite! J.T. Cevallos, 05/04/2004.
= JTC/jtc =


7 de abr. de 2004

ALL THAT JAZZ

Diana Krall – The Girl in the Other Room
(2004 Verve Music Group)

Diana Krall fez vários acertos em seu mais recente CD, The Girl in the Other Room. Primeiramente, chamou seu marido, o cantor e compositor Elvis Costello, para co-escrever seis das doze canções do álbum. Depois, cercou-se de músicos extremamente talentosos – entre eles, Anthony Wilson (guitarra), John Clayton (baixo), e Jeff Hamilton (bateria), que já a acompanhavam na última turnê –, além do co-produtor Tommy LiPuma, vencedor de três prêmios Grammy.

A cantora e pianista canadense, discípula de Fats Waller, selecionou ainda alguns standards modernos para compor o disco e que ficaram especialmente agradáveis de se ouvir na sua interpretação, como no caso da sensual Temptation, de Tom Waits, Black Crow (Joni Mitchell) e Almost Blue (do próprio Costello). Por fim, eliminou os arranjos orquestrais que estavam "empapuçando" os seus dois álbuns de estúdio anteriores, retornando ao jazz "básico", acústico. Essa decisão deu novamente destaque à sua voz aveludada, e ao seu toque gentil ao piano, que nos remete ao estilo de Bill Evans, além de afastá-la da imagem que começava a se formar de "intérprete de luxo" do cancioneiro norte-americano.

"Stop This World!", canta ela, abrindo o CD com muita personalidade, extrapolando sua versatilidade neste blues de Mose Allison. Há ainda espaço para relembrar outras divas através de canções popularizadas por elas: Billie Holiday (I'm Pulling Through) e Bonnie Raitt (Love Me Like a Man). Entre suas composições, Departure Bay, uma homenagem à sua cidade natal, Nanaimo, é tocante ao descrever momentos marcantes de sua vida. Porém, o tema mais recorrente é o amor e o relacionamento entre duas pessoas, (como na intimista faixa-título ou em Narrow Daylight, a mais bonita das seis), resultado de sua inspirada parceria com Costello.

Acreditem, só encontro um "defeito" no novo trabalho de Diana Krall: há uma música instrumental, Sometimes I Just Freak Out, lançada como bônus no final do CD, e que nos deixa ainda mais maravilhados com o talento da Diana pianista e sua banda, mas decididamente frustrados por ter sido reservado somente uma para este ótimo The Girl in the Other Room.