29 de set. de 2004

Mais melancolia

Mais melancolia

Automatic For The People (Warner, 1992) se caracateriza por ser um dos discos mais melancólicos que o R.E.M. lançou até hoje. Aparentemente eles conseguiram repetir a dose neste novo Around The Sun (Warner, 2004), seu 13º álbum, embora não com o mesmo apelo pop das melodias do primeiro e praticamente sem nenhuma música up-tempo.

Talvez as letras de Around The Sun também estejam menos rebuscadas para o padrão "Michael Stipe" de anos atrás, o qual considero um dos mais inspirados poetas do rock. Mas continuam transmitindo esse sentimento de tristeza com muita beleza, como nos versos de Leaving New York, canção que (in)conscientemente nos remete aos atentados de 11 de Setembro:

now life is sweet
and what it brings
I try to take
but loneliness
it wears me out
it lies in wait

and all not lost
still in my eye
the shadow of necklace
across your thigh
I might've lived my life in a dream but I swear it
this is real

memory fuses
and shatters like glass
mercurial future, forget the past
it's you
it's what I feel


A certa altura da carreira, é igualmente comum uma banda buscar alguma inspiração no seu próprio passado, principalmente em estilos que a sempre identificam de imediato. I Wanted to Be Wrong, por exemplo, está presente para nos lembrar como o trio de Athens (GA) nunca abandonou suas raízes folk; assim como a experimentação com o rap em The Outsiders, com a participação de Q. Tip, recorda um encontro similar ocorrido no disco Out Of Time (Warner, 1991).

Mas o CD em si está longe de ser um comeback, situando-se bem próximo ainda dos trabalhos mais recentes do R.E.M. E se não fizeram um disco melhor que o anterior, Reveal (Warner, 2001), Stipe, Buck e Mills ao menos mantiveram o mesmo nível. É possível encontrar pequenas pérolas muito próximas da perfeição, como a já mencionada Leaving New York, Electron Blue e Make it All OK.

14 de set. de 2004

Bomba Atômica

No último dia 9, foi confirmado oficialmente o lançamento do mais novo trabalho da melhor banda de rock do planeta, o U2. Prometido para o dia 22 de novembro, o CD irá se chamar How To Dismantle An Atomic Bomb e tem a produção de Steve Lillywhite, antigo colaborador da banda, desde os primeiros discos (Boy, October e War), além da participação de outros, como Flood (Zooropa e Pop), Jacknife Lee, Nellee Hooper e Chris Thomas.

De acordo com Bono, será ‘nosso primeiro álbum de rock-n-roll’,ou seja, nada de rap, coros gospel ou experimentos em música tecno. ‘The Edge tem tocado uma guitarra fantástica’, afirmou Lillywhite.

O primeiro single, Vertigo, sai no dia 8 de novembro em 3 formatos: 2 CDs e 1 DVD. No DVD podem ser conferidas as novas fotografias da banda feitas recentemente em Lisboa por Anton Corbijn, bem como uma performance ao vivo de Vertigo no estúdio e dirigida por Richie Smyth.

Maiores detalhes, no site oficial da banda: U2.com

7 de set. de 2004

Aerosmith / Honkin' On Bobo

Música de fundo
Aerosmith / Honkin' On Bobo
(2004 Columbia 2-515447)

O Aerosmith nasceu em 1970, em Boston/MA e a sua formação permanece praticamente a mesma desde o seu surgimento. O Aerosmith é Brad Whitford [1952- ] (guitarra), Joe Perry [1950- ] (guitarra), Joey Kramer [1950- ] (bateria), Steven Tyler [1948- ] (vocal, background vocal, harmônica), Tom Hamilton [1951- ] (baixo). Foi uma das mais populares bandas de "hard rock" dos anos 70, estabelecendo o estilo e o som do hard rock e heavy metal por cerca de duas décadas. Sua habilidade em produzir tanto baladas como rock & roll garantiu-lhe uma boa popularidade nos anos 70, quando ganharam vários Discos de Ouro e de Platina.

Depois de um início razoável com dois álbuns que mal chegaram a constar nas paradas de sucesso (Aerosmith [1973] e Get Your Wings [1974]), o Aerosmith lança em 1975 aquele que seria o melhor álbum de sua carreira, tanto comercial como artisticamente - "Toys in the Attic". Depois de vários sucessos, em 1979, Joey Perry deixa banda para formar o "Joe Perry Project". Brad Whitford deixou o grupo no início de 1980, formando a "Whitford-St. Holmes Band". O Aerosmith, agora com novos guitarristas, Jimmy Crespo e Rick Dufay, lança em 1980 o álbum "Greatest Hits", que chega a vender mais de 6 milhões de cópias só nos Estados Unidos.

Problema com drogas pesadas começam a afetar o grupo. Em 1984, Perry e Whitford retornam para a banda e o grupo inicia uma turnê denominada "Back in the Saddle", onde Tyler tem um colapso no palco, mostrando que os problemas com as drogas e álcool continuavam rondando a banda. Em 1987, com Tyler e Perry recuperados das drogas, e em parceria com escritores de hard rock profissionais, como Holly Knight e Desmond Child, lançam o álbum "Permanent Vacation", que resulta nos hits "Dude (Looks Like a Lady)", "Rag Doll" e "Angel".

Com altos ("Toys in the Attic" [1975], "Rocks" [1976], "Done with Mirros"[1985], "Pump" [1989]) e baixos ("Night in the Ruts" [1979], "Rock In A Hard Place" [1982], "Get a Grip" [1993] ) ao longo uma carreira irregular, o Aerosmith conseguiu emplacar bons álbuns o que lhe assegura uma base sólida de fãs e um lugar consagrado na história do rock.

O álbum de hoje rompe uma tradição. Normalmente eu faço comentários sobre artistas e álbuns da minha coleção particular e, quase sempre, eu escolho para a "Música de Fundo" um álbum que considero representativo e superior na carreira do artista. Neste caso particular, o meu estimado colega Ricardo Scotta, pediu-me para ouvir e comentar sobre este CD (Aerosmith / Honkin' On Bobo) que ele comprara recentemente. Isto me coloca numa situação singular, pois tenho que ser imparcial, sem dar a impressão que o meu amigo jogou o seu dinheiro fora e que o seu investimento valeu a pena. Brincadeirinha...

Eu já conhecia o Aerosmith. Tenho deles o "Big Ones" [1994] e o "Nine Lives" [1997]. Entretanto, fazia muito tempo que não ouvia nada deles e a música que mais me marcou, é "Rag Doll". Comprei mais por curiosidade, em promoções, pois não sou muito chegado em rock pesado. Tenho mais em conta o Steven Tyler como sendo o pai da Liv Tyler, do interessante filme "Beleza Roubada" e, mais recentemente, a princesa élfica da trilogia "O Senhor dos Anéis".

Para um disco de blues, o álbum soa meio estranho e surpreendente. É claro que temos que nos lembra que é o velho e bom Aerosmith de "Rag Doll" (minha preferida do álbum "The Big Ones"). Depois de um início meio barulhento, com o puro rock "Road Runner" e "Shame, Shame, Shame", lá pela 3ª faixa, com a ótima "Eyesight To The Blind", finalmente consegui perceber algo de blues. É claro que os gritos e afetações do roqueiro fogem um pouco do estilo, mas as guitarras e harmônicas dão conta do recado e transmitem a mensagem com a competência de muitos anos de estrada.

Segue-se um explosivo blues em "Baby Please Dont Go" (Tyler lembrou-me o Alvin Lee do Ten Years After [1967-74], em Woodstock, cantando "I'm Going Home") e a lenta "Never Loved A Girl", com vocais e guitarras distorcidas que me lembraram o bom e velho Robert Plant [1948- ], do Ledd Zpeppelin [1968-80]. A harmônica em "Back Back Train" nos leva numa bela viagem de trem, num dos temas recorrentes do blues tradicional, com direito a lamentos e tudo. Destaque especial para "You Gotta Move", iniciando com uma bela introdução da harmônica de Tyler, segue-se Kramer na bateria e depois entram as guitarras (Perry e Whitford) e baixo (Hamilton) com tudo o que tem direito. Uma das melhores faixas do álbum, de fazer inveja ao lendário Led Zeppelin. Passe rápido por "The Grind" (a única música do Tyler no disco, dispensável) e vá para "I'm Ready", de Wille Dixon [1915-92], um homem cuja vida foi sinônimo da história do blues na América. O álbum termina com "Jesus Is On The Main Line", um belo gospell tradicional, relembrando onde tudo começou.

Acompanha o álbum um livreto de 16 páginas, com algumas informações sobre as músicas. Sem "liner notes" e com muitas fotos, poderiam ter economizado nas fotos e deixado espaço para mais comentários ou as letras das músicas, por exemplo, já que se trata de um álbum temático.

Dá para dizer que o Aerosmith, na sua mistura de blues rock, hard rock e heavy metal, inaugura um novo gênero, seria um "Heavy Blues" ou "Hard Blues". Embora possa ser excomungado por puristas do blues, não há dúvida que "Honkin' On Bobo" está entre um dos melhores álbuns de rock (e não "blues") que eles já fizeram. Talvez pela expectativa gerada em torno do blues, o álbum desaponta por não trilhar os caminhos mais tradicionais. Mas tradição não é algo a se esperar de uma banda com o espírito irreverente como o Aerosmith, que soa como rock & roll não importa o que toque. Compre só se for fã. J. T. Cevallos, 18/07/2004.
= JTC/jtc =

PS.: Não consegui descobrir o que significa o título "Honkin' On Bobo" (olhei no dicionário: "honk" = grasnar; buzinar), no entanto, a crítica e cometários de usuários na Amazon.com, dizem que é um título "bobo", ou até uma "atrocidade" (no All Music Guide). Se alguém souber o seu significado, me informe, por favor.