14 de dez. de 2004

De volta ao trio

ALL THAT JAZZ

Charlie Hunter Trio – Friends Seen And Unseen
(2004 – Ropeadope)

Não por coincidência, dois dos melhores guitarristas de jazz da atualidade guardam algumas semelhanças que talvez expliquem o porquê de seu merecido destaque: Pat Metheny e Charlie Hunter são prolíficos, senhores absolutos no jazz fusion (cada qual ao seu estilo) e extremamente versáteis. O novo lançamento do mestre das 8 cordas, Friends Seen And Unseen, vem reforçar essas qualidades, além de ocupar um lugar de destaque entre o melhores CDs de 2004.

Apenas um ano após seu disco anterior, Right Now Move (Ropeadope, 2003), Charlie Hunter retorna ao Trio e à fórmula do jazz melódico, quase minimalista e de texturas variadas que conhecemos em seus primeiros trabalhos. Só que desta vez o Trio é composto por dois exímios instrumentistas oriundos da formaçao anterior (o quinteto): John Ellis, no sax tenor, clarinete e flauta e Derek Phillips, na bateria.

Uma formação mais básica dá oportunidade para os músicos explorarem melhor o seu talento na improvisaçao dos solos, valendo a regra também para a escolha de tons e efeitos, artifício que Hunter recorre com freqüência, como o wah-wah utilizado em Lulu's Crawl – onde o saxofone de Ellis surge até mais "sujo" para o acompanhar. Já na faixa seguinte, Darkly, no entanto, Ellis abusa da suavidade da flauta, enquanto o wah-wah retorna num riff "rocker" em Running In Fear From Imaginary Assailants, faixa que se destaca pelo arranjo quebrado do ritmo, soberbamente conduzido por Phillips.

Soweto's Where It's At, composição do pianista sul-africano Abdullah Ibrahim, uma fusão de gospel e reggae, nos remete ao disco Natty Dread, trabalho de 1997, ao passo que Bonus Round faz o mesmo em relaçao ao excelente Bing, Bing, Bing!, de 1995. A base groove característica de Hunter, permeia todo o disco, mas seus solos tem um destaque maior, como em My Son the Hurricane, onde se ouve também o clarinete de Ellis. Cabe a Phillips a responsabilidade de construir a batida sincopada na bateria para acompanhar a troca de improvisos entre o Trio. Fechando o CD, Moore's Alphabet estabelece a unidade entre os três e sua afinidade na improvisação.

Enfim, é complicado descrever a sonoridade de um trabalho de Hunter para quem nunca o ouviu antes. Se esse for o seu caso, a oportunidade está em Friends Seen And Unseen que, para aqueles que gostam de conferir o aval do site AllMusic, foi considerado pelo mesmo o melhor disco da carreira do guitarrista até o momento.