29 de set. de 2003

Ao vivo e bem acompanhados

Em 2001, o Pato Fu foi eleito pela revista Time como uma das dez melhores bandas do mundo (excetuando-se as americanas) ao lado de U2 e Radiohead, pelo CD Televisão de Cachorro. Este invejável reconhecimento – que às vezes passa desapercebido pela mídia/crítica nacional, que prefere idolatrar os Jota Quests e Charlie Browns da vida – poderia subir à cabeça do quarteto mineiro, mas eles se mostraram tão maduros neste ponto, quanto são talentosos em seu trabalho. Ruído Rosa, que foi lançado nesse mesmo 2001, e o MTV Ao Vivo no Museu de Arte da Pampulha, de 2002, estão aí para comprovar a escolha corretíssima da Time e a competência do grupo.

Abaixo reproduzo a resenha que escrevi em 27/04/2001 para o site Ivox sobre o CD Ruído Rosa e mais um comentário a respeito do DVD MTV Ao Vivo no Museu de Arte da Pampulha:

O Pato Fu pode não ser exatamente uma banda "cabeça", coisa rara na atual cena burra do rock nacional, mas certamente é uma das poucas que, após cinco discos e conquistar um sucesso acima da média entre o público, não tem receio algum em lançar um CD como este Ruído Rosa, recheado de sonoridades/instrumentos pouco usuais (synth theremin, cavaquinho, três tipos de baterias diferentes numa mesma música e até um piano de brinquedo) e de arranjos no mínimo esquisitos para algumas músicas, como a releitura de Tolices do Ira! Aliás, o Pato Fu sempre se destacou em fazer covers legaizinhas: tem ainda Eu, da extinta (e ótima) banda gaúcha Graforréia Xilarmônica e Ando Meio Desligado, dos Mutantes, cujo único pecado foi entrar para a trilha sonora de uma novela global.

Por tudo isso, Ruído Rosa está muito próximo dos trabalhos iniciais do quarteto mineiro, o que pode tornar sua audição um pouco difícil num primeiro momento. E mesmo não sendo seu melhor disco, está bem acima do pop descartável de alguns de seus conterrâneos.

Muito bem produzido, o show no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, comemora os 10 anos do Pato Fu. Repertório excelente (com direito a revisões dos hits Sobre o Tempo e Canção Pra Você Viver Mais), arranjos impecáveis (entre outras coisas, auxiliados pelos convidados Hique Gomez e Nico Nicolaeiwsky) e mais quatro faixas inéditas de presente para os fãs, o DVD capta com perfeição o que são estes mineiros em plena atividade, à vontade em executar ao vivo faixas que parecem ser quase impossíveis de sair do estúdio (vide Rotomusic de Liquidificapum ou Capetão 66.6 FM, por exemplo).

A força de músicas como Um Ponto Oito surge renovada na execução correta do grupo, desde o vocal discreto da Fernanda, a guitarra trabalhada do John, o baixo inquieto do Ricardo, até a bateria precisa do Xande. Entre as inéditas, o destaque vai para a belíssima Nada Pra Mim, uma rara canção de amor; tocante, mas que evoca ao mesmo tempo um pouco da nossa inocência infantil. Por Perto, Me Explica e a quase jazzística Não Mais não ficam atrás: são baladas notáveis que deixam o esperimentalismo de lado, sem cair no pop fácil. A dupla gaúcha de Tangos & Tragédias – Nico (piano, acordeon e voz) e Hique (violino, serrote e voz) – são bem aproveitados em várias músicas, contribuindo com seus instrumentos de maneira peculiar e certeira. Bem como os teclados de Lulu Camargo (ex-Karnak).

Na parte técnica, o DVD também não decepciona: ótima imagem (1.33:1) e faixas de 5.1 canais (Dolby Digital e DTS). Encontramos ainda o recurso que a MTV tem explorado muito bem nos seus produtos: legendas com cifras nas músicas. A única ressalva fica por conta da edição, que originalmente inclui as entrevistas com o Pato Fu e que na opção para se assistir apenas o show provoca paradas irritantes entre uma faixa e outra. Ah, poderiam ter incluído também um making-of que mostrasse mais os bastidores do show, principalmente o belíssimo Museu da Pampulhinha...

Gozando de merecido descanso – Fernanda estava para ganhar seu bebê este mês –, o Pato Fu deve voltar com trabalho novo só ano que vem. Portanto, aproveitem para curtir a carreira de uma das melhores bandas nacionais surgidas na última década, com estes dois bons trabalhos deles.


Nenhum comentário: