| Play the Blues... (1993 Charly / Chess CD-RED-5) Existem vários tipos de Blues. Da cantilena lenta e triste da região do Mississipi, conhecido como o "Delta Blues", passando pelo mais relaxante e swingado "Texas-Blues" e chegando ao outro extremo, do blues rápido e dançante conhecido como "Blues-Rock". O estilo de John Lee Hooker [1917-2001] remete às origens do blues. É o canto triste, sincopado, marcado pelas batidas de pé que o caracterizaram e o tornaram famoso. Seu estilo minimalista, rústico é fiel às origens do blues, originado nas tradicionais "work songs" entoadas pelos escravos negros nas plantações de algodão do passado norte-americano. John Lee Hooker nasceu em Clarksdale, no Mississipi, em 22/08/1917, onde, ainda jovem adolescente, recebeu de seu padrasto, Will Moore [1893-1951], as primeiras lições que marcaram o seu estilo de tocar e cantar. Também cantou música "spiritual", mas foi no blues que firmou a sua formação. O seu padrasto conhecia vários outros cantores de blues, lendas da época, que deixaram também as suas impressões no jovem Hooker: Blind Lemon Jefferson [1893-1929], Charley Patton [1887-1934] e Blind Blake [1895-1937]. São os "pais" do Delta Blues / Country Blues. Em 1943 ele já andava por Detroit, tocando onde podia e ganhando popularidade. Em 1948, num encontro com o produtor Bernie Besman, grava o que seria o mais espetacular sucesso de sua carreira, "Boogie Chillen". Um blues primitivo, na voz murmurante de Hooker, acompanhado somente pelo seu violão elétrico e as batidas de pé, que seriam a sua marca registrada. A gravadora Modern Records lança "Boogie Chillen" (junto com "Sally Mae") e Hooker inicia sua caminhada pelo sucesso do R&B. Hooker tem uma vasta discografia. Gravou muito durante toda a sua vida e, curiosamente, tem muitas gravações feitas sob pseudônimos, o que complica a vida de seus biógrafos. Foi uma referência sagrada para as bandas britânicas, influenciadas pelo blues americano, tais como "The Animals" e "Yardbird". Nos últimos tempos, depois de uma fase de esquecimento, o blues voltou a interessar às gravadoras e estas lançaram álbuns com o velho bluesman rodeado de "amigos". "The Healer" (1989) é o primeiro deles, onde Hooker aparece entre luminares tais como Carlos Santana, Bonnie Raitt e Robert Cray. "Mr. Lucky" (1991) é outro exemplo, onde Hooker participa de uma miscelânea que vai de Albert Collins e John Hammond até Van Morrison e Keith Richards. Hooker passou uma vida tranqüila durante seus últimos anos, passando a maior parte do tempo dividindo-se entre várias casas que tinha na costa da Califórnia. Quando surgia uma oportunidade ele continuava gravando. "Chill Out" (1995) e "Don't Look Back" (1997) são outros casos daqueles álbuns repletos de estrelas. Saudado como uma lenda viva, estes álbuns menores não diminuíram em nada a sua estatura, mantendo-o como um ícone da música Americana, mesmo após a sua morte por causas naturais, em 21/06/2001. O álbum de hoje, "House of the Blues" [Charly Brasil] é a combinação de dois álbuns. O original "House of the Blues" (1960 Chess) [trilhas 1 a 12] e mais o álbum da série "Real Folk Blues" (1966 Chess) [trilhas 13 a 21]. É um blues à moda antiga, rústico, melancólico, por vezes alegre, falando de mulheres, bebidas e trens, temas reincidentes quando se fala de blues. Tudo isto acompanhado pelo som monocórdio da guitarra, tocado num só acorde e acompanhado da batida de pé. Paradoxalmente, algo que poderia ser monótono, soa cheio de inflexões e tons, graças à voz rouca, vibrante, gritos e gemidos de Hooker. Destaques para as duas primeiras músicas, "Louise" e "High Priced Woman" onde Hooker é acompanhado no 2º violão [elétrico] pelo jamaicano (!) Eddie Kirkland [1928- ]. Detalhe curioso: ao ouvir música "Leave My Wife Alone" lembrei-me imediatamente de Alvin Lee [1944- ], guitarrista do "Ten Years After" [1967-74], tocando "I'm Going Home" no festival de Woodstock (1970). A música, lançada no segundo álbum deles "Undead" (1968), tem momentos (riffs) que são uma cópia deslavada de "Leave My Wife Alone". Como dizem, a imitação é a melhor forma de lisonja... Em "Walking The Boogie" a voz de Hooker é duplicada (overdubbed), parecendo estar fazendo um dueto consigo mesmo. Interessante, mas desnecessário. Segue-se "Sugar Mama", no velho estilo, recuperando a razão de Hooker. Na 2ª parte do álbum (o "Real Folk Blues") destaque para a rápida e dançante "Let's Go Out Tonight" e a cadência, um pouco mais lenta, de "Stella Mae". Tem também clássicos como "I'm in the Mood" e "One Bourbon, One Scotch, One Beer" (uma das favoritas de Hooker). Esta última, também vale a pena ouvir na versão muito bacana do George Thorogood & The Destroyers. Acompanha o álbum um livreto de 8 páginas, com bastante informações (liner notes de Leslie Fancourt) sobre o disco e as músicas. Uma discografia mostra os álbuns da Charly Records onde saíram as músicas. Se você deseja conhecer o velho blues, nas suas origens, não pode deixar de ouvir uma das suas vozes mais expressivas. John Lee Hooker, "The Man" (O Homem) já se foi, mas, nesta tarde nublada e chuvosa, pareceu-me ouvir as batidas do seu pé, lá em cima... Farewell, John! J.T. Cevallos, 27/06/2004. = JTC/jtc = |
11 de jul. de 2004
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