11 de ago. de 2005

Pato Fu e a Cura


Sei que tenho sido repetitivo, mas no atual cenário continuamente morno (para não dizer medíocre) do rock nacional - salvo raras exceções (leia-se Los Hermanos) -, a banda mineira Pato Fu consegue se sobressair com naturalidade, mesmo num trabalho que não seja totalmente inovador ou espetacular. É o caso do sétimo disco de estúdio deles, Toda Cura Para Todo o Mal (Sony/BMG, 2005). Essa coleção de 13 músicas, que vão do pop/rock singelo ao alternativo non-sense, pode figurar traqüilamente entre as melhores coisas lançadas este ano no país.

Tudo graças, como sempre, à genialidade do guitarrista John, que assina sozinho todas as composições do CD (exceto a música de trabalho Uh Uh Uh, Lá Lá Lá, Ié Ié!, que tem a participação do baixista Ricardo Koctus). Seus arranjos são criativos e as letras conseguem brincar com esse nosso way-of-life de início de século com tiradas ora cínicas, ora melancólicas, mas sempre certeiras. Exemplos é que não faltam:

Quem tem a paz como meta
Quem quer um pouco de paz
Que tire o reboque que espeta
O carro de quem vem atrás
(Uh Uh Uh, Lá Lá Lá, Ié Ié!)

Todo dia nasce um bebê
Pra dividir a vida com você
Todos os dias vão nascer
Bebês com meia vida pra viver
(Amendoim)

Quem mexe com internet
Fica bom em quase tudo
Quem tem computador
Nem precisa de estudo
Estudar pra quê?
(Estudar Pra Quê?)

Me habituei ao pão light
à vida sem gás
O meu café tomo sem açúcar
E até ficar sem comer
Sem te ver
A gente custa mas se habitua
(Vida Diet)

E por aí vai...

Igualmente a habilidade do guitarrista em compor melodias que grudam na cabeça logo na sua primeira audição continua em alta. Nesse grupo estão as baladas Anormal, Sorte e Azar, Agridoce (que tem uma letra bela e triste) e Vida Diet. Como de costume, Fernanda Takai assume os vocais daquelas canções que não exigem muito, enquanto John se encarrega das mais "esquisitas", em geral acompanhadas por efeitos que tornam sua voz quase irreconhecível. Mas quem já está acostumado ao "padrão Pato Fu" de música "alternativa" não vai estranhar. E ainda tem a participação especial de Manuela Azevedo vocalista da banda portuense Clã, em Boa Noite Brasil.

Enquanto aquilo que hoje se chama "rock nacional" continuar na mesmice - o que tem provocado com razão uma avalanche de retornos de bandas que se consagraram nos anos 80 -, vamos agradecer que ainda existem conjuntos como o Pato Fu decididos a curar esse mal.

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