22 de jun. de 2004

Celebrando a vida na morte

Aqui está mais um CD que me interessou exclusivamente pelo seu repertório. Até então, eu só havia ouvido falar da The Dirty Dozen Brass Band, mas nunca havia escutado seu trabalho. Formada basicamente por uma seção de metais (dois trumpetes, um trombone e dois saxofones), acompanhados por uma bateria, sousaphone (um instrumento similar em sonoridade à tuba e adaptado para bandas de desfile) e uma guitarra discreta, essa banda de New Orleans é reponsável por manter a tradição jazz característica dessa cidade, adicionando à sua música doses generosas de Rythm & Blues.

Dando continuidade a uma carreira de notável qualidade, é com Funeral For A Friend (Ropeadope, 2004), seu décimo trabalho, que a DDBB recebeu um destaque especial do site AllMusic. O disco é dedicado à Anthony "Tuba Fats" Lacen, um dos fundadores da banda e falecido algumas semanas após a conclusão das gravações. No repertório, desfilam músicas tradicionais de funeral mesmo, a maioria oriundas do cancioneiro religioso, como What a Friend We Have in Jesus e Amazing Grace, agrupadas em 3 temas de modo a reatratar toda a cerimônia (o desfile, a chegada ao cemitério e o retorno prá casa). A escolha do repertório tem muito da influência espiritual que "Tuba" recebeu de seus pais ainda na infância.

Mas o CD não é depressivo ou excessivamente melancólico. Há um clima de reverência, óbvio, mas entre as músicas com andamento mais pesaroso (Just a Closer Walk With Thee, Is There Anybody Here That Loves My Jesus?), aparecem também ritmos mais alegres, várias improvisações e alguns vocais (Jesus on the Mainline, I'll Fly Away), que empregam ao trabalho um clima contagiante de festa e, acima de tudo, de uma jazz band interessada em celebrar a vida, através da tristeza e reflexão sobre a morte.

A página especial da banda no site da Ropeadope, traz maiores informações, confiram!


15 de jun. de 2004

Em nome de uma causa nobre

Como já falei anteriormente, gravar um disco-tributo é uma tarefa muito arriscada. Se a intenção é homenagear um artista ou banda, em geral o resultado se torna frustrante e, na pior das hipóteses, nos leva ao velho chavão "fique com o original". Três motivos me levaram a "experimentar" o In The Name Of Love: Artists United For Africa, lançamento desse ano da Sparrow Records: 1º) ainda não saiu nenhum tributo decente ao U2; 2º) as bandas/artistas chamados para esse projeto são do mercado CCM, o qual sempre me atraiu; e 3º) parte da renda do CD está sendo revertida para uma causa social urgente: a luta contra a AIDS no continente africano.

Talvez por estarem menos preocupados em homenagear o U2, quanto em ajudar a causa defendida pelo vocalista da banda, Bono, o trabalho desses artistas tenha ficado acima da média em relação a outros tributos. Existem momentos de destaque, mas outros sem brilho algum. O Pillar, por exemplo, fez uma versão totalmente descartável para Sunday Bloody Sunday, carregando no peso das guitarras, mas esquecendo-se da emoção presente na letra da canção. Outros tiveram o mesmo resultado medíocre em suas tentativas de reinventarem as músicas do quarteto irlandês: Delirious?, com Pride; GRITS & Jadyn Maria com With Or Without You e ainda a inexplicável Where The Streets Have No Name, de Chris Tomlin, que ficou exatamente igual à versão do álbum The Joshua Tree, mas falha justamente por... não ser a a voz de Bono, claro.

No grupo daqueles que "quase" chegaram lá estão: Santus Real (Beautiful Day), Starfield (40), Michael Tait, do dc Talk (One) e Todd Agnew (When Love Comes To Town). São versões "bacaninhas", que podiam ter sido melhor trabalhadas, com mais personalidade, e não resistem a uma crítica mais severa.

Os louros vão para a versão de Gloria do Audio Adrenaline, de longe a melhor coisa nesse CD, por ter capturado tão bem a energia dessa canção da fase inicial do U2. Grace, com a voz quase sussurada de Nichole Nordeman também é uma grata surpresa, assim como Love Is Blidness, pelo Sixpence None The Richer, e seus arranjos etéros. Finalmente, o Jars Of Clay contribui com uma versão bluesy e inspirada para All I Want Is You, enquanto Toby Mac comparece com uma Mysterious Ways correta, abusando da batida hip-hop. Por essas cinco canções, o álbum já merecia estar na CDteca de qualquer um.

Maiores informações sobre o CD e o projeto, clique aqui.

14 de jun. de 2004

Música de fundo
Ray Charles / Greatest Country and Western Hits
(1992 Movieplay PRS-23002)

Eu estava preparando esta semana alguns comentários sobre o álbum "Latin Jazz", uma coletânea de jazzistas sul americanos (Mongo Santamaría, Charlie Palmieri, Pepe Castillo e outros) quando fui surpreendido pela notícia da morte deste artista (no dia 10 - Corpus Christi) que foi um dos expoentes máximos da música americana e internacional. Refiro-me ao Sr. Ray Charles Robinson, mais conhecido como Ray Charles [1930-2004]. Quem não se lembra de "Georgia On My Mind" (Georgia, my sweet Georgia...)?

Ray Charles era natural de Albany/GA (Georgia), e foi o maior responsável pela divulgação e desenvolvimento do que se chama "soul music". A "soul music" foi o resultado da urbanização e comercialização do R&B (Rhythm and Blues) nos anos 60. O termo "soul" veio a descrever uma série de estilos musicais baseados no R&B. Durante a primeira parte dos anos 60 o "soul" permaneceu aderente às suas origens no R&B. Entretanto, diversos músicos em diferentes regiões da América, produziram diferentes tipos de "soul". Em regiões como Nova Yorque, a música se concentrou em vocais e uma produção suave. Em Detroit, a Motown criou um som mais orientado ao Pop, formado por uma mescla de gospel, R&B e rock & roll. Ao sul dos EUA a música se tornou mais vigorosa, baseando-se em ritmos mais sincopados, vocais mais ásperos e metais estridentes. Todos estes estilos formaram o "soul", que dominou a musica negra dos anos 60. Depois dele veio o "funk", mas aí já é outra história.

Ray Charles foi um pouco mais além. Misturando R&B dos anos 50 com canto gospel, mais umas pitadas de jazz contemporâneo e blues, criou uma nova forma de música pop negra. Em inglês, o termo "soul" significa alma; sentimento; e é este o espírito da música. Dono de um estilo único e imediatamente reconhecido, Ray Charles conseguia passar uma emoção e sentimentos profundos nas suas canções. Ele também era um exímio tecladista, arranjador e dirigente de orquestra (bandleader). A sua fase mais brilhante e produtiva vai de 1950 a 1960. Depois disso, gravou muitos álbuns, com poucos ou relativos sucessos. Trabalhou até os últimos instantes de sua morte ("Mess Around", uma coletânea dupla, foi lançado pelo selo Proper Pairs em Maio/2004).

A sua infância é trágica. Cego aos 6 anos (glaucoma), Ray Charles estudou na St. Augustine School For The Blinds onde estudou composição e aprendeu a tocar piano e clarinete. Ainda jovem perdeu seus pais e foi para Seattle onde fez as suas primeiras gravações num suave estilo pop/R&B, derivado de Nat "King" Cole [1917-65] e Charles Brown [1922-99].

Durante os anos 50 Ray Charles gravou uma série de sucessos em R&B, que embora não fossem classificados como "soul", pavimentaram o caminho para o "soul" por apresentar uma forma de R&B que era sofisticada sem sacrificar seu caráter emocional. Eclético, Ray Charles trilhou o soul, blues, jazz e o pop. Conseguiu atingir a grande audiência pop a partir da famosa música "What d I Say" onde combinava o rock & roll com o fervor do seu canto de estilo religioso (o gospel).

Em 1962 ele surpreendeu seus fãs do pop, lançando um álbum com músicas country e western (este último estilo - western [swing] - é uma forma mais eclética de country, incorporando melodias pop tradicionais, improvisação do jazz, blues e folk, originando uma música muitíssimo alegre, e que estabeleceu as bases para o rock & roll). O álbum, era o "Modern Sounds in Country and Western Music", lançado pelo selo ABC-Paramount. Este álbum foi um sucesso estrondoso, permanecendo nas paradas de sucesso por cerca de 3 meses e trazendo a fama internacional para Ray Charles. Considere-se que naquela época álbuns de R&B/Soul raramente alcançavam o topo das paradas de sucesso. Lançado em abril/62, logo depois (outubro/62) Ray Charles lança o volume 2, com igual sucesso.

E assim chegamos ao nosso álbum de hoje: "Greatest Country and Western Hits". Lançado originalmente em 1988 (nos EUA), é uma excelente seleção feita a partir dos dois volumes do seminal "Modern Sounds in Country and Western Music", representando o essencial do essencial na música coutry-soul.

As fitas originais, de 25 anos atrás, sofreram um bom trabalho de remasterização (ADD). É muito difícil dizer quais são as melhores faixas, mas podemos destacar pelo menos as nossas mais conhecidas (pelo menos dos seus fãs): "Your Cheatin' Heart", "Hey, Good Lookin'", "I Can't Stop Loving You", "I Love You So Much It Hurts" (esta era a favorita de Ray), "Oh, Lonesome Me", "No Letter Today" e "Don't Let Her Now". São belíssimas melodias e, pelos títulos vocês já podem ver o que significa a música "soul". Mas, calma, não chega a ser só músicas de "dor de cotovelo" (de dar inveja ao Lupicínio Rodrigues), algumas são bastante animadas (eu adoro "Hey, Good Lookin'").

Os créditos originais colocam Ray Charles (vocal, teclados e piano) e Hank Crawford [1934- ] (Sax Alto). A edição nacional (1992 Movieplay), por incrível que pareça tem 3 músicas a mais do que a edição americana (1988 DCC). Enquanto a americana tem 17 músicas, a "nossa" tem 3 músicas a mais, que não existiam nos dois volumes do "Modern Sounds in Country and Western Music", a saber: "Crying Time" [do álbum "Sweet & Sour Tears", de 1964], "Together Again" [do álbum "Genius 20 Greatest Hits", de 1988] e "Don't Let Her Now" [do álbum "Complete Country & Western Recordings 1959-1986", de 1998] são as nossas "faixas bônus". Alguém se passou nessa, pois a regra é que nós sempre recebemos "menos" e nunca "mais". Notas biográficas e créditos das músicas completam este excelente álbum (comprei - fev/2000 - de barbada na loja "Musimundo", que nem existe mais - era no centro de Porto Alegre, na rua José Montaury, 155).

Se você tiver grana pode comprar o box importado com 4 CDs do "Complete Country & Western Recordings 1959-86", a mais ou menos R$ 250,00 na CDPoint ou 50 dólares + impostos, na Amazon.com. Se ainda encontrar este "Greatest ..." por aí, compre sem pestanejar! Ray Charles se foi, mas graças à tecnologia a sua música está preservada para todos os tempos. Descanse em Paz, Ray! J.T. Cevallos, 13/06/2004.
= JTC/jtc =