14 de jun. de 2004

Música de fundo
Ray Charles / Greatest Country and Western Hits
(1992 Movieplay PRS-23002)

Eu estava preparando esta semana alguns comentários sobre o álbum "Latin Jazz", uma coletânea de jazzistas sul americanos (Mongo Santamaría, Charlie Palmieri, Pepe Castillo e outros) quando fui surpreendido pela notícia da morte deste artista (no dia 10 - Corpus Christi) que foi um dos expoentes máximos da música americana e internacional. Refiro-me ao Sr. Ray Charles Robinson, mais conhecido como Ray Charles [1930-2004]. Quem não se lembra de "Georgia On My Mind" (Georgia, my sweet Georgia...)?

Ray Charles era natural de Albany/GA (Georgia), e foi o maior responsável pela divulgação e desenvolvimento do que se chama "soul music". A "soul music" foi o resultado da urbanização e comercialização do R&B (Rhythm and Blues) nos anos 60. O termo "soul" veio a descrever uma série de estilos musicais baseados no R&B. Durante a primeira parte dos anos 60 o "soul" permaneceu aderente às suas origens no R&B. Entretanto, diversos músicos em diferentes regiões da América, produziram diferentes tipos de "soul". Em regiões como Nova Yorque, a música se concentrou em vocais e uma produção suave. Em Detroit, a Motown criou um som mais orientado ao Pop, formado por uma mescla de gospel, R&B e rock & roll. Ao sul dos EUA a música se tornou mais vigorosa, baseando-se em ritmos mais sincopados, vocais mais ásperos e metais estridentes. Todos estes estilos formaram o "soul", que dominou a musica negra dos anos 60. Depois dele veio o "funk", mas aí já é outra história.

Ray Charles foi um pouco mais além. Misturando R&B dos anos 50 com canto gospel, mais umas pitadas de jazz contemporâneo e blues, criou uma nova forma de música pop negra. Em inglês, o termo "soul" significa alma; sentimento; e é este o espírito da música. Dono de um estilo único e imediatamente reconhecido, Ray Charles conseguia passar uma emoção e sentimentos profundos nas suas canções. Ele também era um exímio tecladista, arranjador e dirigente de orquestra (bandleader). A sua fase mais brilhante e produtiva vai de 1950 a 1960. Depois disso, gravou muitos álbuns, com poucos ou relativos sucessos. Trabalhou até os últimos instantes de sua morte ("Mess Around", uma coletânea dupla, foi lançado pelo selo Proper Pairs em Maio/2004).

A sua infância é trágica. Cego aos 6 anos (glaucoma), Ray Charles estudou na St. Augustine School For The Blinds onde estudou composição e aprendeu a tocar piano e clarinete. Ainda jovem perdeu seus pais e foi para Seattle onde fez as suas primeiras gravações num suave estilo pop/R&B, derivado de Nat "King" Cole [1917-65] e Charles Brown [1922-99].

Durante os anos 50 Ray Charles gravou uma série de sucessos em R&B, que embora não fossem classificados como "soul", pavimentaram o caminho para o "soul" por apresentar uma forma de R&B que era sofisticada sem sacrificar seu caráter emocional. Eclético, Ray Charles trilhou o soul, blues, jazz e o pop. Conseguiu atingir a grande audiência pop a partir da famosa música "What d I Say" onde combinava o rock & roll com o fervor do seu canto de estilo religioso (o gospel).

Em 1962 ele surpreendeu seus fãs do pop, lançando um álbum com músicas country e western (este último estilo - western [swing] - é uma forma mais eclética de country, incorporando melodias pop tradicionais, improvisação do jazz, blues e folk, originando uma música muitíssimo alegre, e que estabeleceu as bases para o rock & roll). O álbum, era o "Modern Sounds in Country and Western Music", lançado pelo selo ABC-Paramount. Este álbum foi um sucesso estrondoso, permanecendo nas paradas de sucesso por cerca de 3 meses e trazendo a fama internacional para Ray Charles. Considere-se que naquela época álbuns de R&B/Soul raramente alcançavam o topo das paradas de sucesso. Lançado em abril/62, logo depois (outubro/62) Ray Charles lança o volume 2, com igual sucesso.

E assim chegamos ao nosso álbum de hoje: "Greatest Country and Western Hits". Lançado originalmente em 1988 (nos EUA), é uma excelente seleção feita a partir dos dois volumes do seminal "Modern Sounds in Country and Western Music", representando o essencial do essencial na música coutry-soul.

As fitas originais, de 25 anos atrás, sofreram um bom trabalho de remasterização (ADD). É muito difícil dizer quais são as melhores faixas, mas podemos destacar pelo menos as nossas mais conhecidas (pelo menos dos seus fãs): "Your Cheatin' Heart", "Hey, Good Lookin'", "I Can't Stop Loving You", "I Love You So Much It Hurts" (esta era a favorita de Ray), "Oh, Lonesome Me", "No Letter Today" e "Don't Let Her Now". São belíssimas melodias e, pelos títulos vocês já podem ver o que significa a música "soul". Mas, calma, não chega a ser só músicas de "dor de cotovelo" (de dar inveja ao Lupicínio Rodrigues), algumas são bastante animadas (eu adoro "Hey, Good Lookin'").

Os créditos originais colocam Ray Charles (vocal, teclados e piano) e Hank Crawford [1934- ] (Sax Alto). A edição nacional (1992 Movieplay), por incrível que pareça tem 3 músicas a mais do que a edição americana (1988 DCC). Enquanto a americana tem 17 músicas, a "nossa" tem 3 músicas a mais, que não existiam nos dois volumes do "Modern Sounds in Country and Western Music", a saber: "Crying Time" [do álbum "Sweet & Sour Tears", de 1964], "Together Again" [do álbum "Genius 20 Greatest Hits", de 1988] e "Don't Let Her Now" [do álbum "Complete Country & Western Recordings 1959-1986", de 1998] são as nossas "faixas bônus". Alguém se passou nessa, pois a regra é que nós sempre recebemos "menos" e nunca "mais". Notas biográficas e créditos das músicas completam este excelente álbum (comprei - fev/2000 - de barbada na loja "Musimundo", que nem existe mais - era no centro de Porto Alegre, na rua José Montaury, 155).

Se você tiver grana pode comprar o box importado com 4 CDs do "Complete Country & Western Recordings 1959-86", a mais ou menos R$ 250,00 na CDPoint ou 50 dólares + impostos, na Amazon.com. Se ainda encontrar este "Greatest ..." por aí, compre sem pestanejar! Ray Charles se foi, mas graças à tecnologia a sua música está preservada para todos os tempos. Descanse em Paz, Ray! J.T. Cevallos, 13/06/2004.
= JTC/jtc =

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