30 de nov. de 2004

Desmontando a bomba atômica 2

Desmontando a bomba atômica 2.

Agora que estou com a edição limitada (CD+DVD+Livro) do How To Dismantle an Atomic Bomb em mãos, resolvi fazer um adendo aos comentários que postei sobre o novo álbum do U2. Como era de se esperar, é muito bonita: uma luva de cartolina bem resistente acomodando o livro (também de capa dura e com folhas de alta qualidade) e mais o encarte do CD (de cartolina mais fina). O DVD fica num envelope dentro do livro.

Aliás, o livro é uma viagem só.... Desenhos, rabiscos, fotos, vários manuscritos e até as palmas das mãos do quarteto – que as deixaram impressas em tinta tal qual crianças do jardim de infância. O livro abre e fecha com frases de efeito de Oppenheimer (citando o Bhagavad Gita durante o primeiro teste da bomba atômica norte-americana) – "Eu sou a morte, o poderoso destruidor do mundo" – e de Gandhi – "Nós devemos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo". A Declaração Universal dos Direitos Humanos está reproduzida na íntegra (será por isso que a ed. não saiu por aqui? ;-)) O trabalho lembra um pouco os encartes costumeiros dos CDs do Pearl Jam e do Radiohead.

Mas........... nem tudo são flores, infelizmente.

1º) Faltaram as letras! Não dá prá entender o porquê..... ter que comprar a edição simples, só por causa do encarte com as letras? O livro trás todos os créditos do CD mas apenas um link para as letras: http://www.u2.com/htdaab-lyrics

2º) Também não gostei do modo como o CD vem acondicionado no encarte. Não há presilhas, ele simplesmente fica dentro de um envelope vazado (para ficar à mostra na luva, que também é vazada) e com muita folga, praticamente solto. Uma embalagem luxuosa (e cara) como esta e não pensaram que o CD pode se arranhar facilmente?

Fora esses "detalhes", é um item imperdível para os fãs – vale cada dólar investido nele! O DVD vem com legendas em português e o CD tem a tão falada Fast Cars (que é legalzinha, mas totalmente fora do clima do álbum – motivo pelo qual devem ter decidido não incluí-la nas edições normais).

16 de nov. de 2004

Blue Note Plays the Beatles



ALL THAT JAZZ

Vários artistas / Blue Note Plays the Beatles
(2004 Blue Note 7243-5-78626-2-2)

A "blue note" - segundo Roberto Muggiati escreveu num belo livrinho de 34 páginas [A Estória do Blues, São Paulo, Editora Três, 1983], uma verdadeira pérola, presente de meu colega de trabalho Augusto A. Moreira, a nota "blue" é a célula básica do blues, "um som único, do grito africano, que reflete uma característica cultural típica e que tem desafiado qualquer análise segundo os padrões da musicologia ocidental.". Ainda segundo Muggiati, a "blue note" "ocorre invariavelmente na terceira e na sétima (querem alguns também na quinta) notas das escala diatônica européia. Ou seja: na tonalidade de Dó maior, o Mi e o Si eram bemolizados, isto é, decresceriam de meio-tom. Isto corresponderia a uma resistência étnica, a uma incapacidade - ou recusa - do negro de aderir estritamente à tonalidade européia."

Entendeu? Nem eu. Eu só gosto de música, não sou músico! Mas achei que alguém poderia querer saber o que é esta tal de "blue note", ampliando os nossos conhecimentos musicais.

O gênero "blues" é o antepassado do Jazz, que pode ser considerado uma das primeiras manifestações musicais genuinamente norte-americanas, com sua fundamentação no blues, a confiança na interação do grupo e improvisações aleatórias. Pois "Blue Note" é também o nome da companhia gravadora que tem se dedicado ao jazz desde os seus primórdios. Fundada em 1939, ironicamente, por dois imigrantes alemães Alfred Lion e Francis Wolff, hoje é sinônimo de jazz na América.

Um pouco de história das gravadoras: Em 1898, Fred Gaisberg cria em Londres a "Gramophone Company" e faz um arranjo com Joseph Berliner para abrir uma fábrica em Hannover (AL) para prensar os discos. Nascia em 24/11/1898 a "Grammophon Gesellschaft mbH". Em 1916, com a Segunda Guerra Mundial, a companhia, como é inglesa, é considerada "propriedade do inimigo" e os dois ramos são obrigados a separar-se. O ramo inglês viria a tornar-se a "EMI Records" e o alemão é a "Deutsche Grammophon". Da EMI Music UK, saiu um braço denominado "Parlophone" (http://www.parlophone.co.uk/newsite/) que viria a ser a gravadora dos Beatles (os quais, mais tarde, viriam a criar a sua gravadora "Apple Records").

Os Beatles [1960-70] invadiram a América em 1964 (a famosa "Invasão Britânica"), revolucionando o mundo musical da época e ajudando a colocar meio de lado o já claudicante cenário do Jazz. O rock and roll veio para valer e alguns jazzmen temeram por seu futuro. Entretanto, muitos enxergaram em John Lennon e Paul McCartney, compositores sérios, com harmonias tão amplas como as encontradas no Bebop. E assim, confirmando o que diz o ditado: "Se você não pode com eles, una-se a eles", muitos músicos de jazz passaram a incluir canções dos Beatles em seus repertórios. Não é para menos que, em 1965, Gerry Mulligan gravou várias músicas dos Beatles num álbum cujo título era "If You Can't Beat 'Em, Join 'Em". Desde então, a "Beatlemania" espalhou-se pelo jazz e muitas das músicas dos "Fab Four" tornaram-se standards do jazz.

O álbum de hoje:

Vários artistas / Blue Note Plays the Beatles
2004 Blue Note/EMI 7243-5-78626-2-2

Músicas (todas as músicas compostas por John Lennon e Paul McCartney):

Faixa MúsicaIntérprete(s)InstrumentoTempoÁlbum original dos BeatlesAnoAMG
1 Can't Buy Me LoveStanley Turrentine [1934-2000]Sax tenor6:47A Hard Day's Night19645 stars
2 YesterdayLee Morgan [1938-72]trompete5:48Help!19655 stars
3 Norwegian WoodBuddy Rich [1917-87]bateria3:10Rubber Soul19655 stars
4 Hello GoodbyeBud Shank [1926- ]sax alto3:15Magical Mystery Tour19675 stars
- - - - -Chet Baker [1929-88]flugelhorn- - -- - -- - -- - -
5*A Day in the LifeGrant Green [1931-79]guitarra9:01Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band19675 stars
6*Eleanor RigbyStanley Jordan [1959- ]guitarra7:01Revolver19665 stars
7 BlackbirdTony Williams [1945-97]bateria5:34The Beatles (Álbum Branco)19685 stars
8 I've Just Seen a FaceHolly Cole [1963- ]Vocal3:54Help!19655 stars
9 And I Love HerKevin Hays [1968- ]Piano6:19A Hard Day's Night19645 stars
10*Come TogetherDianne Reeves [1956- ]Vocal4:39Abbey Road19695 stars
- - - - -Cassandra Wilson [1955- ]Vocal- - -- - -- - -- - -
- - - - -Bob Belden [1956- ]sintetizador,
tímpanos
- - -- - -- - -- - -
11*Drive My CarBobby McFerrin [1950- ]Vocal2:41Rubber Soul19655 stars

(*) destaques
AMG = Cotação no All Music Guide (máximo = 5 stars)

Como eu já disse aqui antes, eu sou fã de carteirinha dos Beatles. Na minha juventude, sabia as suas músicas de cor (e ainda me lembro de várias). O que sempre marcou os Beatles foi o seu som distintivo, a musicalidade contagiante e a ingenuidade de suas letras (OK, algumas nem tanto). Mas a sua marca está nas suas vozes, o "som" dos Beatles era único e inconfundível. Você sabia dizer instantaneamente quando se tratava de uma música deles. Hoje, sinto dificuldade em distinguir alguns conjuntos de outros (alguém pode dizer que a minha capacidade auditiva também diminuiu com o tempo, vá lá, pode ser...). E por ser assim, eu sempre fico com "um pé atrás", como se diz, quando me deparo com estes "tributos", pois sempre me vem à memória as vozes originais dos "4 de Liverpool". Mas no final, "a carne é fraca" e acabo caindo na tentação e incluo mais um na minha CDteca. Além disso, o álbum une dois interesses - Beatles + Jazz e não dá para resistir (foi a mesma coisa com o CD do John Pizzarelli / Meet The Beatles).

O álbum de hoje traz 11 composições da dupla Lennon/McCartney, abrangendo um período que vai de 1964 a 1996, com grandes jazzistas prestando o seu tributo àquela que, sem sombra de dúvida, foi e sempre será a maior banda de todos os tempos.

O resultado final é agradável, variando do bom (é o mínimo, por ser Beatles) ao muito bom. Algumas interpretações mantém-se dentro da linha melódica original e acrescentam o "swing" jazzístico, com bons resultados, como o sax de Stanley Turrentine [1934-2000] em "Can't Buy Me Love". Outras não acrescentam muita coisa, tais como "Yesterday". Destaques mesmo vão para "A Day in the Life" onde o violão de Grant Green [1931-79] substitui magistralmente a muralha de cordas e a cacofonia psicodélica da original em "Sgt. Peppers...", a guitarra de Stanley Jordan [1959- ] dando um belo tratamento poético a "Eleonor Rigby", as "vozes" do malabarista da voz, Bobby McFerrin [1950- ], criando (com "overdubing") uma interpretação a capella de "Drive My Car". E "Come Together", embora mantenha o ritmo original e não seja das mais inventivas, é a minha preferida do álbum, nas belas vozes de Dianne Reeves [1956- ] e Cassandra Wilson [1955- ], acompanhadas pelo competente arranjador e produtor Bob Belden [1956- ] no sintetizador e tímpanos (Belden também toca sax tenor, mas não neste álbum).

O álbum faz parte de uma série "Blue Note Plays...", dedicada a vários artistas, além dos Beatles: Duke Ellington, Jobim, Sinatra, Gershwing, Burt Bacharach e Stevie Wonder. Acho que vale a pena ouvir os outros. Acompanha o álbum um livreto de 8 páginas, com liner notes de James Gavin e créditos detalhados para cada música, inclusive informando qual o álbum original [do intérprete] que foi lançada a versão. Eu preferi indicar qual o álbum dos Beatles onde foi lançada a música.

James Gavin, nas liner notes, conta que em 1966, numa conferência para a imprensa, perguntaram aos Beatles como eles se sentiam com relação a artistas como Ella Fitzgerald "usando suas músicas e alterando-as para adapta-las ao seu estilo em particular". Paul respondeu: "Uma vez que tenhamos publicado uma música, qualquer um pode faze-lo. Se nós gostamos ou não, depende o quanto eles o fizeram de acordo com o nosso gosto.". Perguntados sobre quem faria as suas músicas melhor, John respondeu no ato: "Nós!". Pois é John, você tinha razão. J.T. Cevallos, 15/11/2004.
= JTC/jtc =

8 de nov. de 2004

Desmontando a bomba atômica, faixa a faixa.

Desmontando a bomba atômica, faixa a faixa.

Em 2005, o U2 completará 25 anos de carreira (considerando o debút oficial com o disco Boy em 1980), mas quem recebe o presente, antecipadamente, são os seus fãs, e ele se chama How To Dismantle An Atomic Bomb (Universal, 2004).

O disco abre com os riffs furiosos de guitarra de Vertigo. Rock 'n'roll puro, como o U2 nunca havia feito antes. O refrão, "I’m at a place called Vertigo", nos convida a conhecer este lugar, atiçando a nossa curiosidade, o que talvez seja mesmo o mote da música em relação ao resto do CD. Como que celebrando seu quarto de século, há um pouco da fase inicial da banda na canção: uma linha de baixo envolvente escorando os arpejos econômicos de Edge, enquanto Bono sussurra: "All of this can be yours". É a faixa mais pop do disco, feita sob medida para atacar nas rádios FMs e que a princípio causa a impressão de que o CD inteiro será repleto de refrões grudentos. Ledo engano.

Com Miracle Drug já dá para perceber ao que a banda veio desta vez. Passada a euforia inicial, o arranjo da segunda faixa acompanha o tom quase sem espenrança desta canção de amor (a certa altura Bono capitula: "God I need your help tonight").

No mesmo clima, segue Sometimes You Can't Make It On Your Own. Aqui ouvimos pela primeira vez a volta da infinite guitar, esquecida desde o tempo do Joshua Tree (1987). Bono ensaia alguns de seus falsetes característicos e a canção segue num arranjo crescendo – outra marca registrada dos velhos tempos da banda.

Love And Peace Or Else. A essa altura pode não parecer óbvio, mas HTDAAB não é um disco feito para as paradas pop. A estrutura das canções começa a se libertar da tradicional linearidade "estrofe/refrão/ponte/refrão", para alçar vôos mais alternativos. E os instrumentos acompanham testando muitas idéias... teclados, efeitos, distorções fuzz, e dedilhados que soam como sinos.

A infinite guitar do Edge (evocando Wire de The Unforgettable Fire, de 1985) dá início a uma das melhores músicas do CD, na minha opinião. Com exceção de Vertigo, nenhuma das melodias de HTDAAB é facilmente assimilada na sua primeira audição. Com City Of Blinding Lights ocorre o mesmo, mas no entanto logo se entra no clima do arranjo e da forma como ele torna essa melodia especial.

Como havia sido amplamente anunciado, The Edge tomou as rédeas dos arranjos deste disco e deixa isso bem claro em All Because Of You. Sem desmerecer os demais instrumentistas do grupo, que estão igualmente inspirados (em especial Adam Clayton), Edge quase consegue elevar o U2 a categoria de guitar band.

Na singela e acústica A Man And A Woman, Bono faz uma declaração de amor a sua esposa e nos brinda com outra canção que parece mais uma vez ser diferente de tudo que o quarteto irlandês fez até hoje.

Em Crumbs From Your Table, nova prova da versatilidade do guitarrista. Já dá para concluir que The Edge é o grande destaque desse disco. Solos "matadores", sem precisarem ser virtuosos.

Os arranjos mais soturnos retornam com One Step Closer, juntamente com o tom quase confessional com que Bono conduz a canção – que inclui agradecimentos especiais ao amigo Noel Gallagher, do Oasis.

Os strings são o destaque da penúltima faixa, Original Of The Species, juntamente com a guitarra e o belo refrão que se encaixam com perfeita harmonia. Num trabalho tão equilibrado como este, é difícil eleger as melhores canções, mas esta com certeza está entre elas.

Yahweh, que é nome hebreu para Deus (Jeová) em inglês, fecha o CD trazendo mais camadas de piano e guitarras com delay e uma letra que surge tal qual uma oração emblemática: "Take these hands/Teach them what to carry/Take these hands/Don’t make a fist/Take this mouth/So quick to criticise/Take this mouth/Give it a kiss".

Novamente o U2 se sobressai por não ser repetitivo. How To Dismantle An Atomic Bomb pode lembrar a sonoridade da banda em fases distintas, mas o conjunto ainda preserva o ar de novidade. Em primeiro lugar, por soar mais alternativo que o anterior, All That You Can't Leave Behind, de 2001. Segundo, porque The Edge não se sobressaía de maneira espetacular assim desde Achtung Baby, de 1992. E, por último: uma banda com tanto tempo de estrada, mantendo o nível de inspiração de seus trabalhos a cada nova etapa, é algo raríssimo no rock atualmente. E merece ser celebrado!