| Desmontando a bomba atômica, faixa a faixa.
O disco abre com os riffs furiosos de guitarra de Vertigo. Rock 'n'roll puro, como o U2 nunca havia feito antes. O refrão, "I’m at a place called Vertigo", nos convida a conhecer este lugar, atiçando a nossa curiosidade, o que talvez seja mesmo o mote da música em relação ao resto do CD. Como que celebrando seu quarto de século, há um pouco da fase inicial da banda na canção: uma linha de baixo envolvente escorando os arpejos econômicos de Edge, enquanto Bono sussurra: "All of this can be yours". É a faixa mais pop do disco, feita sob medida para atacar nas rádios FMs e que a princípio causa a impressão de que o CD inteiro será repleto de refrões grudentos. Ledo engano. Com Miracle Drug já dá para perceber ao que a banda veio desta vez. Passada a euforia inicial, o arranjo da segunda faixa acompanha o tom quase sem espenrança desta canção de amor (a certa altura Bono capitula: "God I need your help tonight"). No mesmo clima, segue Sometimes You Can't Make It On Your Own. Aqui ouvimos pela primeira vez a volta da infinite guitar, esquecida desde o tempo do Joshua Tree (1987). Bono ensaia alguns de seus falsetes característicos e a canção segue num arranjo crescendo – outra marca registrada dos velhos tempos da banda. Love And Peace Or Else. A essa altura pode não parecer óbvio, mas HTDAAB não é um disco feito para as paradas pop. A estrutura das canções começa a se libertar da tradicional linearidade "estrofe/refrão/ponte/refrão", para alçar vôos mais alternativos. E os instrumentos acompanham testando muitas idéias... teclados, efeitos, distorções fuzz, e dedilhados que soam como sinos. A infinite guitar do Edge (evocando Wire de The Unforgettable Fire, de 1985) dá início a uma das melhores músicas do CD, na minha opinião. Com exceção de Vertigo, nenhuma das melodias de HTDAAB é facilmente assimilada na sua primeira audição. Com City Of Blinding Lights ocorre o mesmo, mas no entanto logo se entra no clima do arranjo e da forma como ele torna essa melodia especial. Como havia sido amplamente anunciado, The Edge tomou as rédeas dos arranjos deste disco e deixa isso bem claro em All Because Of You. Sem desmerecer os demais instrumentistas do grupo, que estão igualmente inspirados (em especial Adam Clayton), Edge quase consegue elevar o U2 a categoria de guitar band. Na singela e acústica A Man And A Woman, Bono faz uma declaração de amor a sua esposa e nos brinda com outra canção que parece mais uma vez ser diferente de tudo que o quarteto irlandês fez até hoje. Os arranjos mais soturnos retornam com One Step Closer, juntamente com o tom quase confessional com que Bono conduz a canção – que inclui agradecimentos especiais ao amigo Noel Gallagher, do Oasis. Os strings são o destaque da penúltima faixa, Original Of The Species, juntamente com a guitarra e o belo refrão que se encaixam com perfeita harmonia. Num trabalho tão equilibrado como este, é difícil eleger as melhores canções, mas esta com certeza está entre elas. Yahweh, que é nome hebreu para Deus (Jeová) em inglês, fecha o CD trazendo mais camadas de piano e guitarras com delay e uma letra que surge tal qual uma oração emblemática: "Take these hands/Teach them what to carry/Take these hands/Don’t make a fist/Take this mouth/So quick to criticise/Take this mouth/Give it a kiss". Novamente o U2 se sobressai por não ser repetitivo. How To Dismantle An Atomic Bomb pode lembrar a sonoridade da banda em fases distintas, mas o conjunto ainda preserva o ar de novidade. Em primeiro lugar, por soar mais alternativo que o anterior, All That You Can't Leave Behind, de 2001. Segundo, porque The Edge não se sobressaía de maneira espetacular assim desde Achtung Baby, de 1992. E, por último: uma banda com tanto tempo de estrada, mantendo o nível de inspiração de seus trabalhos a cada nova etapa, é algo raríssimo no rock atualmente. E merece ser celebrado! |
8 de nov. de 2004
Desmontando a bomba atômica, faixa a faixa.
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