ALL THAT JAZZ (2004 Blue Note 7243-5-78626-2-2) A "blue note" - segundo Roberto Muggiati escreveu num belo livrinho de 34 páginas [A Estória do Blues, São Paulo, Editora Três, 1983], uma verdadeira pérola, presente de meu colega de trabalho Augusto A. Moreira, a nota "blue" é a célula básica do blues, "um som único, do grito africano, que reflete uma característica cultural típica e que tem desafiado qualquer análise segundo os padrões da musicologia ocidental.". Ainda segundo Muggiati, a "blue note" "ocorre invariavelmente na terceira e na sétima (querem alguns também na quinta) notas das escala diatônica européia. Ou seja: na tonalidade de Dó maior, o Mi e o Si eram bemolizados, isto é, decresceriam de meio-tom. Isto corresponderia a uma resistência étnica, a uma incapacidade - ou recusa - do negro de aderir estritamente à tonalidade européia." Entendeu? Nem eu. Eu só gosto de música, não sou músico! Mas achei que alguém poderia querer saber o que é esta tal de "blue note", ampliando os nossos conhecimentos musicais. O gênero "blues" é o antepassado do Jazz, que pode ser considerado uma das primeiras manifestações musicais genuinamente norte-americanas, com sua fundamentação no blues, a confiança na interação do grupo e improvisações aleatórias. Pois "Blue Note" é também o nome da companhia gravadora que tem se dedicado ao jazz desde os seus primórdios. Fundada em 1939, ironicamente, por dois imigrantes alemães Alfred Lion e Francis Wolff, hoje é sinônimo de jazz na América. Um pouco de história das gravadoras: Em 1898, Fred Gaisberg cria em Londres a "Gramophone Company" e faz um arranjo com Joseph Berliner para abrir uma fábrica em Hannover (AL) para prensar os discos. Nascia em 24/11/1898 a "Grammophon Gesellschaft mbH". Em 1916, com a Segunda Guerra Mundial, a companhia, como é inglesa, é considerada "propriedade do inimigo" e os dois ramos são obrigados a separar-se. O ramo inglês viria a tornar-se a "EMI Records" e o alemão é a "Deutsche Grammophon". Da EMI Music UK, saiu um braço denominado "Parlophone" (http://www.parlophone.co.uk/newsite/) que viria a ser a gravadora dos Beatles (os quais, mais tarde, viriam a criar a sua gravadora "Apple Records"). Os Beatles [1960-70] invadiram a América em 1964 (a famosa "Invasão Britânica"), revolucionando o mundo musical da época e ajudando a colocar meio de lado o já claudicante cenário do Jazz. O rock and roll veio para valer e alguns jazzmen temeram por seu futuro. Entretanto, muitos enxergaram em John Lennon e Paul McCartney, compositores sérios, com harmonias tão amplas como as encontradas no Bebop. E assim, confirmando o que diz o ditado: "Se você não pode com eles, una-se a eles", muitos músicos de jazz passaram a incluir canções dos Beatles em seus repertórios. Não é para menos que, em 1965, Gerry Mulligan gravou várias músicas dos Beatles num álbum cujo título era "If You Can't Beat 'Em, Join 'Em". Desde então, a "Beatlemania" espalhou-se pelo jazz e muitas das músicas dos "Fab Four" tornaram-se standards do jazz. O álbum de hoje: Vários artistas / Blue Note Plays the Beatles 2004 Blue Note/EMI 7243-5-78626-2-2 Músicas (todas as músicas compostas por John Lennon e Paul McCartney):
(*) destaques AMG = Cotação no All Music Guide (máximo = 5 stars) Como eu já disse aqui antes, eu sou fã de carteirinha dos Beatles. Na minha juventude, sabia as suas músicas de cor (e ainda me lembro de várias). O que sempre marcou os Beatles foi o seu som distintivo, a musicalidade contagiante e a ingenuidade de suas letras (OK, algumas nem tanto). Mas a sua marca está nas suas vozes, o "som" dos Beatles era único e inconfundível. Você sabia dizer instantaneamente quando se tratava de uma música deles. Hoje, sinto dificuldade em distinguir alguns conjuntos de outros (alguém pode dizer que a minha capacidade auditiva também diminuiu com o tempo, vá lá, pode ser...). E por ser assim, eu sempre fico com "um pé atrás", como se diz, quando me deparo com estes "tributos", pois sempre me vem à memória as vozes originais dos "4 de Liverpool". Mas no final, "a carne é fraca" e acabo caindo na tentação e incluo mais um na minha CDteca. Além disso, o álbum une dois interesses - Beatles + Jazz e não dá para resistir (foi a mesma coisa com o CD do John Pizzarelli / Meet The Beatles). O álbum de hoje traz 11 composições da dupla Lennon/McCartney, abrangendo um período que vai de 1964 a 1996, com grandes jazzistas prestando o seu tributo àquela que, sem sombra de dúvida, foi e sempre será a maior banda de todos os tempos. O resultado final é agradável, variando do bom (é o mínimo, por ser Beatles) ao muito bom. Algumas interpretações mantém-se dentro da linha melódica original e acrescentam o "swing" jazzístico, com bons resultados, como o sax de Stanley Turrentine [1934-2000] em "Can't Buy Me Love". Outras não acrescentam muita coisa, tais como "Yesterday". Destaques mesmo vão para "A Day in the Life" onde o violão de Grant Green [1931-79] substitui magistralmente a muralha de cordas e a cacofonia psicodélica da original em "Sgt. Peppers...", a guitarra de Stanley Jordan [1959- ] dando um belo tratamento poético a "Eleonor Rigby", as "vozes" do malabarista da voz, Bobby McFerrin [1950- ], criando (com "overdubing") uma interpretação a capella de "Drive My Car". E "Come Together", embora mantenha o ritmo original e não seja das mais inventivas, é a minha preferida do álbum, nas belas vozes de Dianne Reeves [1956- ] e Cassandra Wilson [1955- ], acompanhadas pelo competente arranjador e produtor Bob Belden [1956- ] no sintetizador e tímpanos (Belden também toca sax tenor, mas não neste álbum). O álbum faz parte de uma série "Blue Note Plays...", dedicada a vários artistas, além dos Beatles: Duke Ellington, Jobim, Sinatra, Gershwing, Burt Bacharach e Stevie Wonder. Acho que vale a pena ouvir os outros. Acompanha o álbum um livreto de 8 páginas, com liner notes de James Gavin e créditos detalhados para cada música, inclusive informando qual o álbum original [do intérprete] que foi lançada a versão. Eu preferi indicar qual o álbum dos Beatles onde foi lançada a música. James Gavin, nas liner notes, conta que em 1966, numa conferência para a imprensa, perguntaram aos Beatles como eles se sentiam com relação a artistas como Ella Fitzgerald "usando suas músicas e alterando-as para adapta-las ao seu estilo em particular". Paul respondeu: "Uma vez que tenhamos publicado uma música, qualquer um pode faze-lo. Se nós gostamos ou não, depende o quanto eles o fizeram de acordo com o nosso gosto.". Perguntados sobre quem faria as suas músicas melhor, John respondeu no ato: "Nós!". Pois é John, você tinha razão. J.T. Cevallos, 15/11/2004. = JTC/jtc = |
16 de nov. de 2004
Blue Note Plays the Beatles
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