Uma das poucas lembranças bem nítidas que tenho das idas ao cinema em minha pré-adolescência pertence a "Caçadores da Arca Perdida" (Raiders Of The Lost Ark, 1981), que fui assistir no extinto Cine Scala em 82. E a lembrança é nítida justamente por ter sido um filme tão marcante para mim na época. Um filme que se confudia com a própria palavra cinema enquanto entreternimento, assim como seu herói se confundia com o gênero que ele reverenciava. Vinte e seis anos depois eu sento na poltrona do Unibanco Arteplex para viajar numa máquina do tempo e reencontrar exatamente os mesmos ingredientes que fizeram de Indiana Jones uma franquia de sucesso: mistérios sobrenaturais, perseguições mirabolantes, vilões deliberadamente caricatos e algumas ótimas situações de alívio cômico. Tudo muito bem dosado pela mão correta de Steven Spielberg. Os Michael "Transformers" Bay e Roland "10.000 A.C." Emmerich da vida deveriam se sentir envergonhados por estarem há tanto tempo no mesmo ofício sem terem aprendido nada com o mestre do cinema-pipoca.
A experiência de ver "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) é tão próxima das outras aventuras do arqueólogo que a única coisa que realmente nos indica que essa produção veio com dezenove anos de atraso é o rosto de Harrison Ford - cansado e tão "surrado" quanto suas próprias roupas e chapéu. Sua performance, no entanto, não parece ter envelhecido em nada. E Spielberg atesta o mesmo, conduzindo algumas das melhores cenas de perseguições em filmes dos últimos anos, sem abusar de efeitos especiais desnecessários.
O filme só não é melhor que os anteriores por insistir em se auto-referenciar (mania do George Lucas? resultado de um roteiro que passou por diversas mãos?). Mas são pequenos detalhes que não chegam a incomodar realmente e garantem até um pequeno saudosismo aos antigos fãs. Algo como uma despedida, talvez definitiva, do herói e a constatação que em todos esses anos nenhum outro conseguiu roubar sua empatia. Ou, para fazer jus ao chavão, mudar o nome da aventura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário