With John Coltrane and the Love Supreme."
(U2, Bullet The Blue Sky)
Após uma espera de 6 anos (!) - que pode ser comprovada por este antigo post do blog - a editora Barracuda finalmente editou no Brasil o A Love Supreme: A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane, que eu comecei a ler este mês. O livro foi escrito pelo ótimo jornalista musical Ashley Kahn, que também é autor do Kind of Blue – A História da Obra-prima de Miles Davis - o qual recomendo a leitura igualmente.
Bom, a minha relação com este que é considerado um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos, surgiu ao ouvir o Bono, do U2, citá-lo na versão da música "Bullet The Blue Sky" que está no disco Rattle And Hum, de 1988. Desde então, sempre tive curiosidade de escutá-lo, mas numa época em que ainda não haviam mp3s, muito menos com a facilidade de encontrá-los na internet, tive que esperar um bom tempo até conseguir comprar um CD importado de A Love Supreme, isto há cerca de uns doze anos atrás.
Eu era completamente leigo quanto ao jazz, e da importância de Coltrane para a música norte-americana. Porém, após duas ou três audições do CD, fiquei incrivelmente convencido da genialidade, da profundidade, da relevância daquela obra-prima. E principalmente, do motivo porque Bono citava ela em uma música de um disco que tem por background a América: era a espiritualidade que permeava todo o trabalho do saxofonista, com a mesma intensidade que Bono imprime às canções do U2, em especial no The Joshua Tree, a obra-prima do U2 lançada em 1987.
E a prova dessa relação entre Bono e Coltrane, é citada logo na introdução do livro de Kahn, num depoimento enviado ao autor, através de email em 3 de novembro de 2001, exemplificando a influência do disco clássico sobre a música em geral, inclusive o rock:
"Bono, vocalista do U2, conta uma história através da qual consegui uma explicação atual para o apelo universal de Coltrane – e do álbum:
'Eu estava na cobertura do Grand Hotel em Chicago [na turnê de 1987] ouvindo A Love Supreme e aprendendo uma lição para toda a vida. Pouco antes, estava vendo televangelistas recriarem Deus à sua própria imagem: pequenos, mesquinhos e gananciosos. A religião se tornou uma inimiga de Deus, pensei... a religião foi o que veio quando Deus, assim como Elvis, deixou o recinto. Sei bem, desde que me conheço por gente, que o mundo se encaminhava em uma direção longe do amor, e eu também me deixava levar por isso. Existe muita maldade nesse mundo, mas a beleza é o nosso prêmio de consolação... a beleza da voz rouca de John Coltrane, seus sussurros, sua sabedoria, sua sexualidade dissimulada, seu louvor à criação. E assim Coltrane passou a fazer sentido para mim. Deixei o disco no modo de repetição e fiquei acordado ouvindo um homem encarar Deus com o dom de sua música.'" (p. 23)
Para algumas pessoas esse trecho do livro pode ser apenas uma mera curiosidade. Para mim foi muito revelador, pois considero que A Love Supreme está para John Coltrane assim como The Joshua Tree está para o U2. São discos que representam fielmente seus criadores, são a essência deles, se confundem com eles. E ambos estão na minha lista de TOP 5 discos essenciais.
Não canso de repetir: quem tiver acesso a esse disco, ouça! Pode soar "estranho" pela primeira vez a quem não está acostumado ao jazz, especialmente ao estilo de Coltrane, mas com o tempo se consegue perceber a beleza dessa suíte composta em louvor e gratidão a Deus.
Mais detalhes sobre o livro num próximo post!

Nenhum comentário:
Postar um comentário