30 de mar. de 2004

Mr. Johnson revisited

Em 1994, o slow hand Eric Clapton lançou From the Cradle, um tributo ao estilo que o consagrou mundialmente antes de unir-se ao rock e, eventualmente, enveredar nos caminhos mais atraentes e fáceis do pop. As releituras de clássicos de Muddy Waters e Howlin' Wolf, entre outros, regados com guitarras elétricas ao melhor estilo do blues de Chicago, foi um sucesso imediato: venceu o prêmio Grammy, conquistou o disco de platina três vezes. Em 2000, ele retornou às raízes acompanhado por outra lenda do blues, B.B. King, no aclamado Riding With The King.

Mas uma década se passou até que Clapton desse à luz a um trabalho à altura do Cradle. Dessa vez, o homenageado é um só: o mestre dos mestres, Robert Johnson - que curiosamente havia ficado de fora na seleção anterior. Em Me and Mr. Johnson ele interpreta magistralmente 14 das famosas 29 únicas canções da figura mítica de Johnson, calcando seus arranjos no blues rural do Mississippi, mas sem abrir mão de sua Stratocaster para imprimir um pouco de sujeira das cordas eletrificadas à coleção de clássicos que desfilam: Traveling Riverside Blues, If I Had Possession Over Judgement Day, Love in Vain, ...

Com a segurança de um aluno que aprendeu muito bem a lição de casa, e a humildade suficiente para deixar de lado a sua orientação para a fusão blues/rock, o músico inglês acerta novamente. É claro que Me and the Devil Blues, por exemplo, só pode cantar a profunda aflição de "caminhar lado a lado" com o diabo, quem a conheceu e Clapton chega bem próximo disso. Particularmente, senti a falta de Crossroads, mas ainda há muito com o que se deleitar: é quase impossível não se comover pela tristeza destilada no mais puro grau de canções como Little Queen of Spades ou Kind Hearted Woman Blues.

Num estilo que praticamente esgotou suas possibilidades de renovação, a alternativa de revisitar o passado tem se tornado freqüente (vide o último lançamento do Aerosmith, Honkin' on Bobo). Com Me and Mr. Johnson, Clapton o faz com reverência e talento inegável, nos transportando às estradas empoeiradas, cruzamentos desertos, tragédias de amor e todas essas imagens comuns aos bluesmen do início do século passado. Uma lembrança mais do que bem-vinda!

28 de mar. de 2004

ALL THAT JAZZ

Eliane Elias / Eliane Elias Plays Jobim
(1990 Blue Note/Somethin' Else Records CDP-7-93089-2)

Eliane Elias [1960- ] é brasileira, nascida na cidade de São Paulo, mas vocês não vão encontrar os seus álbuns tão facilmente por aqui. Este eu descobri por acaso, numa promoção das Americanas.com. Estabelecida em Nova York, tem uma formação clássica que logo enveredou para o jazz. Dotada de uma técnica impecável, amparada em estudos no Centro Livre de Aprendizado Musical, em São Paulo, técnica clássica com Amilton Godoy e Amaral Vieria e aulas particulares com Olegna Fuschi na famosa Juilliard School of Music, sua carreira artística, como solista, data de 1986, com o seu primeiro álbum "Illusions".

Eliane Elias é muito parecida, no estilo e na aparência, com outra grande estrela do jazz contemporâneo, a pianista e cantora, Diana Krall. Fiz uma pesquisa no All Music Guide para ver quem segue a quem. Curiosamente, o site não informa a data de nascimento de Diana Krall. No entanto, registra-se que o primeiro álbum de Eliana Elias é de 1986 ("Illusions"), enquanto Diana Krall debuta com o álbum "Steppin' Out" em 1993. Além disso, Eliana Elias, antes de lançar seu primeiro album, fez parte do conjunto de jazz (Fusion, Post-Bop) Steps Ahead [1979- ]. Ou seja, Eliane Elias tem mais anos de "carreira". Mera curiosidade.

Neste álbum, Eliane Elias dá um tratamento jazzístico para grandes obras da bossa-nova, do repertório do grande pianista, cantor e compositor brasileiro, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido por Tom Jobim [1927-1994]. Acompanhada por Eddie Gomez [1944- ] (baixo), Jack DeJohnette [1942- ] (bateria) e Naná Vasconcelos [1944- ] (percussão), o resultado é surpreendentemente bom, a iniciar pela interpretação de "Águas de Março", na qual sustenta um ritmo intenso e ao mesmo tempo fluido, com o acompanhamento do percussionista Naná Vasconcelos. Outro destaque é para a sua reinvenção de "Samba de Uma Nota Só", num tratamento quase irreconhecível, mas de excelente ritmo, deixando entrever, de vez em quando, o tão conhecido refrão.

Todo o álbum é instrumental (ótimo) e me lembra muito o antigo e famoso conjunto Zimbo Trio [1964- ]. Na última música, Eliana Elias nos brinda com sua voz interpretando "Por Causa de Você". Um canto suave e aveludado, que combina bem com a melodia triste e intimista de Jobim.

A afinidade natural entre a bossa-nova e o jazz é muito bem ilustrada nas interpretações deste álbum. Como dizem, "a must have"! J.T. Cevallos, 14/03/04.
= JTC/jtc =

26 de mar. de 2004

ALL THAT JAZZ

Donald Byrd / A New Perspective
(1963, 1999 Blue Note / Capitol Records 7243-4-99006-2-2)

Donald Byrd [1932- ] (nascido Donaldson Toussaint L'Ouverture II), nasceu em 09/12/1932, na cidade de Detroit (MI). A sua vocação musical surgiu na infância, influência de seu pai, um pastor metodista que também era um músico amador. Ao completar o segundo grau ("high school") já era um trompetista completo. Tocou ao lado de quase todos os grandes nomes do jazz da sua época (anos 50, 60): Lionel Hampton [1909-2002], Grupo George Wallington [1924-1933], Art Blakey's Jazz Messengers [1955-], Max Roach [1924- ], e mais John Coltrane [1926-1967], Sonny Rollins [1930- ] e Red Garland [1923-1984].

Com uma grande bagagem teórica musical (bacharelado em música pela Wayne State University, em 1954; mestrado na Manhattan School of Music, em 1955), estudou também na Europa com a lendária educadora musical francesa Nadia Boulanger [1887-1979]. Além de tocar e gravar, usou grande parte de seu talento e energia para transmitir a sua arte através do ensino, trabalhando diligentemente para colocar o jazz e sua história nos currículos escolares. Donald Byrd lecionou música nas faculdades de Hampton, New York University, e Howard.

Comprei este CD meio no "impulso". Recebi do colega Daniel Olsson um e-mail da promoção das Lojas Americanas, com CDs importados à R$ 25,00 (uma barbada, se pensarmos que lançamentos nacionais já estão passando da casa dos R$ 30,00). Também não estou ganhando nada para fazer propaganda das Americanas. He!he!he! Pesquisando os títulos (de jazz), o que me chamou a atenção para o "A New Perspective", foi o sub-título "band e voices". Uma pesquisa no All Music Guide mostrou que o álbum era inusitado por unir jazz + gospel. Pronto! Foram criadas as condições para mais um compra! E assim foi feito.

Este álbum ("A New Perspective") foi gravado logo após o seu retorno da Europa, em 1963. Hoje, é considerado um clássico, por ter estabelecido novos rumos ao incorporar um coral gospel nos seus arranjos.

O álbum inicia com "Elijah", uma bela e longa composição de nove minutos, que mais parece uma "jam session", onde cada um dos componentes do grupo pode exibir a maestria no seu instrumento. Kenny Burrell [1931- ] inicia com um belo solo de guitarra, em seguida, entra Donald Best [?] no vibrafone (vibes), preparando o terreno para um grande solo de Hank Mobley [1930-1986] (sax tenor), segue-se o próprio Donald Byrd no trompete. Depois é a vez de Herbie Hancock [1940- ] mostrar sua virtuosidade no piano. Durante todo este tempo, são acompanhados pela bateria incansável de Lex Humphries [?], o baixo de Butch Warren [1939- ] e as vozes do coral dirigido por Coleridge Perkinson [1932- ]. O nome "Elijah" é uma homenagem ao seu pai, um ministro metodista, de onde ele obteve a inspiração para fazer um álbum de músicas do tipo "spirituals" (um dos estilos do gênero "gospel"). Esta é a "nova perspectiva" que ele deseja transmitir nas suas composições e arranjos. Uma abordagem jazzística para transmitir a herança religiosa afro-americana.

Se em "Elijah" as vozes soam como intrusas na música, em "Beast of Burden" e "Cristo Redentor" o efeito é mais suave e parece mais harmonioso. Vozes e instrumentos se entrelaçam e trocam de papel ao longo da música. Inicialmente as vozes comandam o espetáculo e os instrumentos dão exclusivamente o suporte necessário. A seguir, os instrumentos prevalecem e as vozes ficam ao fundo. Depois seguem juntos, vozes e instrumentos, quase num "acapella". E assim, vão alternando-se. O resultado é uma música que não é gospel nem é totalmente jazz, mas transmite uma sensação de serenidade religiosa.

"Cristo Redentor" foi escrita por Duke Pearson [1932-1980] (o arranjador) como resultado de uma experiência pessoal que teve numa visita a cidade do Rio de Janeiro (RJ/Brasil), em 1961. Conta Natt Hentoff [1925- ] (nas "liner notes") que Pearson ficou muito impressionado ao ver a famosa estátua do Cristo Redentor, no morro do Corcovado. Ele foi acometido de um sentimento religioso muito intenso, que o levou a compor a música em seguida. Na época de seu lançamento, "Cristo Redentor", tornou-se bastante popular.

O ritmo mais nervoso e intenso de "The Black Discipline" é fruto de suas pesquisas e é inspirada em ritmos Africanos, especialmente sons de uma tribo do Congo. O nome da música refere-se ao Rei Negro, dos três Reis [Magos] que foram a Belém na noite em que Jesus nasceu. Fugiu um pouco ao meu estilo, mas as coisas melhoram a seguir.

"Chant" traz de novo vozes e instrumentos tocando juntos. Belos solos de piano trazem de volta o clima relaxante do disco.

Jazz instrumental e vozes se combinam com sentimentos religiosos, para criar, como disse o próprio Donald Byrd, um livro de hinos religiosos. O resultado final da audição é agradável, um música refinada e introspectiva.

Certamente um gênio, Donald Byrd tinha o seguinte credo "Eu vou tão longe quanto as minhas emoções, intelecto e experiências me permitam". Este álbum é um exemplo de onde a sua criatividade musical pode nos levar. Aproveitemos para fazer esta viagem junto com ele! J.T. Cevallos, 27/02/2004.
= JTC/jtc =

Jesus VIVE!

Ontem fui assistir a "A Paixão do Cristo" e saí do cinema emocionado, sem dúvida, mas também um pouquinho decepcionado. Não pela qualidade da produção, que é excelente - uma fotografia primorosa, com cenários e iluminação bastante verossímeis e interpretações convincentes.

Também não foi o exagero nas cenas de violência que me incomodou. Mel Gibson buscou, ao seu modo, retratar o realismo de uma crucificação e isso siginifca aceitar que, se hoje vivemos num mundo violento, há dois mil anos atrás, quando nem se quer ouvia-se falar em direitos humanos, a coisa devia ser bem pior!

Igualmente não foi o suposto anti-semitismo. Ao meu ver, essa polêmica toda partiu dos judeus numa atitude do tipo - na falta de melhor expressão - "o chapéu deve ter servido".

A única reclamação em relação ao filme foi sua visão nitidamente católica desse acontecimento - o mais importante na história da humanidade: o Cristo padecendo e morto foram mais valorizados que a Sua ressureição e vitória sobre a morte. Duas horas são dedicadas ao martírio de Jesus, e um minuto apenas para "dar o recado" que ele voltou do túmulo.

Gibson, sendo católico ortodoxo, não conseguiu escapar dessa "tradição" de darem mais importância à morte que a ressureição. Basta olhar nas igrejas católicas o quanto há de crucifixos e comparar com as igrejas protestantes, em que o símbolo da cruz, quando há, aparece vazio... Porque Jesus está VIVO! Ora, de nada adiantaria todo o sofrimento, toda a humilhação, se ao final ele não vencesse a morte! Seria apenas mais um mártir que se sacrificou por ideais nobres.

Portanto, fica aqui o meu único protesto em relação ao filme: a morte de Cristo era necessária e foi muito bem retratada, mas a Sua ressureição é o fato mais maravilhoso de toda essa história e um minuto foi muito pouco prá mostrar ao público o significado disso!

20 de mar. de 2004

"Here we are now, entertain us"
Smells Like Teen Spirit, Nirvana

Esta veio de algo que eu costumava dizer toda vez que eu saia prá uma festa, a fim de "quebrar o gelo". Normalmente quando você está parado com as pessoas ao redor numa sala, isto é realmente chato e incômodo. Então, era: "Bem, aqui estamos nós, distraia-nos. Você nos convidou aqui." – Kurt Cobain

8 de mar. de 2004

Vem aí...

Enquanto trabalha em seu novo álbum, em um estúdio em Nassau, o R.E.M. anuncia o lançamento de mais um DVD ao vivo. Chega ao mercado internacional agora em março, Perfect Square, com o show realizado em Wiesbaden, na Alemanha, em 2003.

Segundo o site DVD Reviewer, o DVD será widescreen anamórfico, com som DD 5.1 e DTS e terá um documentário, A Stirling Performance, produzido durante a turnê do álbum Up.

As músicas são: Begin the Begin, What's the Frequency Kenneth?, Maps and Legends, Drive, Animal, Daysleeper, Great Beyond, Bad Day, The One I Love, All the Way to Reno (You're Gonna be a Star), Orange Crush, Losing My Religion, At My Most Beautiful, Electrolite, She Just Wants to Be, Walk Unafraid, Man on the Moon, Everybody Hurts, So Fast So Numb, Country Feedback, Permanent Vacation, Imitation of Life, It's The End of the World As We Know It (And I Feel Fine).

O novo CD da banda está prometido para o outono (americano) deste ano.

Quem também está com um novo trabalho "saindo do forno" já no próximo mês de maio é a banda Third Day. Wire é o quinto álbum de estúdio da banda de Gospel Rock de Atlanta – que possui fortes raízes no estilo de música "sulista" dos EUA –, e que se tornou um fenômeno na música cristã contemporânea, recebendo vários prêmios Dove pelo seu projeto Offerings, dedicados a worship music, e um Grammy pelo disco anterior, Come Together.

Wire já se encontra em pré-venda. Maiores informações em ThidDay.com.

1 de mar. de 2004

Sem novidades

Após assistir aos 90 minutos deste bem executado show do DVD Live 2003, do Coldplay, no Sydney's Horden Pavilion, em julho de 2003, chego a conclusão que ele é.... basicamente isso: bem executado! Não chega a ser um elogio mas também não é uma crítica. A verdade é que o quarteto londrino não acrescenta nenhuma novidade ao apresentar os seus hits – e são vários para um discografia de apenas dois álbuns – tocando cada música exatamente da mesma maneira que as ouvimos nas gravações de estúdio. De qualquer forma, o faz de maneira competente, interagindo com a platéia e transmitindo a força que cada música trás dentro de si – que é um dos motivos do seu sucesso.

Algumas canções, como Shiver e Everything's Not Lost, até que não passam tão desapercebidas quanto na audição do disco original, Parachutes, mas é pouco para quem almeja seguir os passos das suas principais influências (U2 e Pink Floyd, só para fica nas mais óbvias), ou pelo menos criar alguma identidade "ao vivo". Também há uma ênfase exagerada no vocalista Chris Martin que, ao piano, protagoniza seu papel de centro das atenções. Isso não o incomoda em absoluto, tocando sozinho ao violão a bela See You Soon (do EP The Blue Room). É uma pena que haja tão pouco espaço para o guitarrista, Jon Buckland, responsável por uma coleção de riffs geniais, sem apelar prá chatice do virtuosismo; ou para o baixista e baterista, que estão perfeitos, mas quase que meros coadjuvantes na apresentação. Por outro lado, a banda dá provas de sua inspiração nas faixas novas, One I Love e Moses.

O show foi filmado em câmeras Super-16mm, alternando tomadas coloridas e em preto & branco e tendo uma iluminação condizente com o clima das músicas. Apesar de escuro, a qualidade da transferência é razoável. Destaque para o jogo de sobreposição de imagens das lâmpadas desfocadas utilizado na edição, e que produziu um efeito bem bonito. Em geral a imagem é escura, e a qualidade da transferência, razoável. Já o som poderia ter um tratamento melhor. Mesmo a faixa DTS é irregular e carece de uma melhor distribuição dos instrumentos nas caixas traseiras. O efeito surround praticamente só é percebido quando a platéia se manifesta ao final de cada música.

Alguns bons momentos estão reservados no documentário que acompanha o DVD. São mostrados depoimentos e cenas de bastidores da extensa turnê que a banda realizou em 2003, capazes de cativar mesmo quem não é fã. O Coldplay é sincero naquilo que faz, e mesmo o apoio à campanha do Make Trade Fair não soa falso ou oportunista. Há inclusive um momento bem interessante: quando eles vão tocar em Red Rocks, no Colorado, Chirs Martin lembra, com reverência, que naquele dia faziam exatos 20 anos que o U2 havia se apresentado no mesmo lugar.

Mas se isso é algum tipo de presságio, só o tempo dirá...