26 de mar. de 2004

ALL THAT JAZZ

Donald Byrd / A New Perspective
(1963, 1999 Blue Note / Capitol Records 7243-4-99006-2-2)

Donald Byrd [1932- ] (nascido Donaldson Toussaint L'Ouverture II), nasceu em 09/12/1932, na cidade de Detroit (MI). A sua vocação musical surgiu na infância, influência de seu pai, um pastor metodista que também era um músico amador. Ao completar o segundo grau ("high school") já era um trompetista completo. Tocou ao lado de quase todos os grandes nomes do jazz da sua época (anos 50, 60): Lionel Hampton [1909-2002], Grupo George Wallington [1924-1933], Art Blakey's Jazz Messengers [1955-], Max Roach [1924- ], e mais John Coltrane [1926-1967], Sonny Rollins [1930- ] e Red Garland [1923-1984].

Com uma grande bagagem teórica musical (bacharelado em música pela Wayne State University, em 1954; mestrado na Manhattan School of Music, em 1955), estudou também na Europa com a lendária educadora musical francesa Nadia Boulanger [1887-1979]. Além de tocar e gravar, usou grande parte de seu talento e energia para transmitir a sua arte através do ensino, trabalhando diligentemente para colocar o jazz e sua história nos currículos escolares. Donald Byrd lecionou música nas faculdades de Hampton, New York University, e Howard.

Comprei este CD meio no "impulso". Recebi do colega Daniel Olsson um e-mail da promoção das Lojas Americanas, com CDs importados à R$ 25,00 (uma barbada, se pensarmos que lançamentos nacionais já estão passando da casa dos R$ 30,00). Também não estou ganhando nada para fazer propaganda das Americanas. He!he!he! Pesquisando os títulos (de jazz), o que me chamou a atenção para o "A New Perspective", foi o sub-título "band e voices". Uma pesquisa no All Music Guide mostrou que o álbum era inusitado por unir jazz + gospel. Pronto! Foram criadas as condições para mais um compra! E assim foi feito.

Este álbum ("A New Perspective") foi gravado logo após o seu retorno da Europa, em 1963. Hoje, é considerado um clássico, por ter estabelecido novos rumos ao incorporar um coral gospel nos seus arranjos.

O álbum inicia com "Elijah", uma bela e longa composição de nove minutos, que mais parece uma "jam session", onde cada um dos componentes do grupo pode exibir a maestria no seu instrumento. Kenny Burrell [1931- ] inicia com um belo solo de guitarra, em seguida, entra Donald Best [?] no vibrafone (vibes), preparando o terreno para um grande solo de Hank Mobley [1930-1986] (sax tenor), segue-se o próprio Donald Byrd no trompete. Depois é a vez de Herbie Hancock [1940- ] mostrar sua virtuosidade no piano. Durante todo este tempo, são acompanhados pela bateria incansável de Lex Humphries [?], o baixo de Butch Warren [1939- ] e as vozes do coral dirigido por Coleridge Perkinson [1932- ]. O nome "Elijah" é uma homenagem ao seu pai, um ministro metodista, de onde ele obteve a inspiração para fazer um álbum de músicas do tipo "spirituals" (um dos estilos do gênero "gospel"). Esta é a "nova perspectiva" que ele deseja transmitir nas suas composições e arranjos. Uma abordagem jazzística para transmitir a herança religiosa afro-americana.

Se em "Elijah" as vozes soam como intrusas na música, em "Beast of Burden" e "Cristo Redentor" o efeito é mais suave e parece mais harmonioso. Vozes e instrumentos se entrelaçam e trocam de papel ao longo da música. Inicialmente as vozes comandam o espetáculo e os instrumentos dão exclusivamente o suporte necessário. A seguir, os instrumentos prevalecem e as vozes ficam ao fundo. Depois seguem juntos, vozes e instrumentos, quase num "acapella". E assim, vão alternando-se. O resultado é uma música que não é gospel nem é totalmente jazz, mas transmite uma sensação de serenidade religiosa.

"Cristo Redentor" foi escrita por Duke Pearson [1932-1980] (o arranjador) como resultado de uma experiência pessoal que teve numa visita a cidade do Rio de Janeiro (RJ/Brasil), em 1961. Conta Natt Hentoff [1925- ] (nas "liner notes") que Pearson ficou muito impressionado ao ver a famosa estátua do Cristo Redentor, no morro do Corcovado. Ele foi acometido de um sentimento religioso muito intenso, que o levou a compor a música em seguida. Na época de seu lançamento, "Cristo Redentor", tornou-se bastante popular.

O ritmo mais nervoso e intenso de "The Black Discipline" é fruto de suas pesquisas e é inspirada em ritmos Africanos, especialmente sons de uma tribo do Congo. O nome da música refere-se ao Rei Negro, dos três Reis [Magos] que foram a Belém na noite em que Jesus nasceu. Fugiu um pouco ao meu estilo, mas as coisas melhoram a seguir.

"Chant" traz de novo vozes e instrumentos tocando juntos. Belos solos de piano trazem de volta o clima relaxante do disco.

Jazz instrumental e vozes se combinam com sentimentos religiosos, para criar, como disse o próprio Donald Byrd, um livro de hinos religiosos. O resultado final da audição é agradável, um música refinada e introspectiva.

Certamente um gênio, Donald Byrd tinha o seguinte credo "Eu vou tão longe quanto as minhas emoções, intelecto e experiências me permitam". Este álbum é um exemplo de onde a sua criatividade musical pode nos levar. Aproveitemos para fazer esta viagem junto com ele! J.T. Cevallos, 27/02/2004.
= JTC/jtc =

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