Sem muita enrolação, aqui estão os meus eleitos deste ano:
1. No Line On The Horizon (U2)
2. Years Of Refusal (Morrissey)
3. Wilco (Wilco)
4. Them Crooked Vultures (Them Crooked Vultures)
5. Backspacer (Pearl Jam)
6. To Lose My Life (White Lies)
7. Tonight: Franz Ferdinand (Franz Ferdinand)
8. Journal For Plague Lovers (Manic Street Preachers)
9. Ignore The Ignorant (The Cribs)
10. The Resistance (Muse)
Eu achei um ano atípico. Fraco em todos os sentidos. Nenhum álbum realmente marcante – algo que daqui a dez anos você se lembre do quanto influenciou novos artistas e trabalhos ou trouxe algo de realmente inovador. Além disso, confesso que sou um tanto tendencioso ao selecionar os melhores do ano pois naturalmente faço uma pré-seleção do que quero ouvir (bandas conhecidas, discos bastante comentados pela crítica ou indicações de amigos acabam tendo preferência) e portanto, muita coisa acaba ficando de fora da avaliação. Também não vivo do ofício de resenhista musical, não tenho essa obrigação, é apenas um exercício narcisista :). Então, destaco aqueles que realmente ouvi, gostei de primeira e voltei a ouvir outras vezes. Os que não passaram por essa triagem, sinto muito, não tiveram muito a me dizer.
Sendo assim, o U2, apesar de não ter feito sua obra-prima da década como alguns esperavam, lançou um trabalho ousado mesmo assim, no sentido de experimentar caminhos sonoros mais etéreos, sofisticados e igualmente inspirados em seu No Line On The Horizon. Num ano de poucos destaques entre as novidades, o "velho" acaba se renovando outra vez e conquistando o 1º lugar.
Mossissey também se despede de sua carreira (quem sabe?) com um disco coeso e de bastante energia. O Wilco quase repete o feito do anterior Sky Blue Sky... não foi tão perfeito assim, mas ainda lançou um grande disco. Já o super-trio do Them Crooked Vultures ficou responsável por trazer os ares de novidade na minha lista com um ótimo trabalho de estréia. O Pearl Jam se destaca por ter lançado um álbum "curto e grosso" e o White Lies, encerrando a década que reviveu os anos 80, debutou com uma coleção de canções cheias de referências àquela época, o que sempre me agrada.
Franz Ferdinand e Manic Street Preachers lançaram discos bons que, novamente, por conta de um ano de trabalhos bastante medianos, acabaram aparecendo no meu Top 10 . E não seria justo citar o Morrissey e deixar de fora seu ex-colega de banda, Johnny Marr, que voltou a fazer diferença nas guitarras junto ao The Cribs. Por fim, o Muse finalmente conseguiu se desligar das semelhanças com o Radiohead e lançar um disco que me cativou.
Cabem aqui menções honrosas para: The Eternal (Sonic Youth) e 21st Century Breakdown (Green Day). Eu incluiria até o a-ha que retornou aos arranjos eletrônicos dos primeiros discos, mas casados com um pop mais maduro, em seu Foot Of The Mountain. Neste momento é assim que sinto em relação ao melhor de 2009, mas a música é o tipo de arte que precisa de tempo para ser apreciada com mais profundidade. Portanto, pode até ser que daqui a meses, alguns destes álbuns ainda venham a trocar de posição e outros acabem aparecendo na lista também... :D
Tenham um feliz 2010!
30 de dez. de 2009
14 de dez. de 2009
A Todo Volume
Uma pequena nota sobre o documentário A Todo Volume (It Might Get Loud, 2009), de Davis Guggenheim, que assisti no fim-de-semana. Em duas palavras: muito bom! Altamente recomendado para os amantes da guitarra e, em especial, fãs do U2, Led Zeppelin e White Stripes/Raconteurs, pois os protagonistas são justamente os guitarristas: The Edge, Jimmy Page e Jack White.Logo que fiquei sabendo desse filme, eu pensei (como muitos devem ter feito também) que talvez o Edge não fosse o guitarrista mais indicado para o documentário; que talvez se esperasse alguém com um perfil mais tradicional de guitar hero, ainda mais ali no meio de uma lenda viva como o Jimmy Page ou de uma revelação incontestável como o Jack White. Sim, confesso que fiquei com o receio alheio de que talvez ele ficasse deslocado, que o diretor não soubesse valorizar a relevância dele na história da guitarra - que é a proposta do filme.
Ledo engano!
Guggenheim teve a excelente sacada em pegar uma figura de cada geração do rock e o Edge é um ótimo representante dos guitarristas que surgiram nos anos 80, na explosão do pós-punk, da new wave, e da máxima do "do-it-yourself". Numa época em que todos estavam cansados da super-valorzação do solo na construção das músicas, do virtuosismo dos músicos e daquela megalomania progressiva dos anos 70. E dentro deste conceito, o Edge, com seus acordes econômicos e a profusão de efeitos que utiliza, teve e tem tanto a contribuir quanto os outros dois. Possui tanta genialidade quanto eles. Tocar guitarra não é apenas habilidade ou velocidade. É, acima de tudo, sentimento, personalidade, amor pelo instrumento. E o documentário deixa isso bem claro.
Cenas prá ficarem na memória prá sempre: The Edge, Jimmy Page e Jack White tocando os riffs de "I Will Follow" e de "In My Time of Dying"! Simplesmente cabuloso!
13 de nov. de 2009
Comprovando a teoria
Eis-me novamente discorrendo sobre b-sides. Desta vez são os do Radiohead, que está re-editando toda a sua discografia em edições de luxo e recheadas de sobras de estúdio, faixas ao vivo e versões alternativas. Sei que os lançamentos já chegaram no Hail To The Thief, de 2003, mas vou me concentrar apenas nos três primeiros: Pablo Honey (1993), The Bends (1995) e OK Computer (1997). Justamente os que considero terem a melhor seleção de b-sides da banda de Oxford liderada por Thom Yorke.

Começando com o melhor dos três: The Bends é um momento de transição do Radiohead. Está exatamente entre o britpop ortodoxo de Pablo Honey (com algumas guitarras vindas diretamente do grunge de Seattle) e o experimentalismo progressivo-eletrônico da obra-prima OK Computer (experimentalismo este que a partir de então ficaria cada vez mais eletrônico). Assim como o disco, os b-sides dos singles extraídos dele, reunidos no disco extra desta edição limitada, dão conta de demonstrar essa transição.

Uma das melhores faixas da coletânea é "Maquiladora" - o tipo de música que merecia entrar no próprio álbum, pela genial construção de seu arranjo. Ou então a delicada "How Can You Be Sure?" que lembra "Fake Plastic Trees" e por consequência talvez essa semelhança tenha sido o motivo dela ter "sobrado". Já "Punchdrunk Lovesick Singalong" e "Talk Show Host" apontam para o trabalho seguinte, enquanto "Killer Cars" ainda mostra uma banda coesa com a sonoridade do seu primeiro disco. Mas a lista de preciosidades continua: "The Trickster", "Lewis (Mistreated)", "Permanent Daylight", "India Rubber", "Banana Co." - todas canções com bastante força para terem entrado no álbum "oficial". Imagino que a escolha do repertório deve ter sido difícil para a banda.

Embora menos prolíficos, os b-sides de Pablo Honey e OK Computer também reúnem músicas que chamam a atenção como "Inside My Head", "Pop Is Dead", "Polyethylene", "Lull" e "Palo Alto". Mas a partir do polêmico Kid A (2000), já não consegui listar faixas que mereçam um destaque especial entre a seleção dos discos bônus. Mesmo assim, os fãs vão encontrar farto material inédito, versões ao vivo e remixes que devem valer o investimento - principalmente prá quem não tem ainda os discos do Radiohead. Prá quem já acompanhava a carreira deles e está na dúvida se vale a pena importar, minha recomendação é por estas três primeiras edições. Em especial, a do The Bends.
Prá terminar: a qualidade destes b-sides do Radiohead só vem a comprovar minha teoria de que pode-se medir a relevância de uma banda pelo nível de suas sobras de estúdio. Eles passam no teste com folga.

Começando com o melhor dos três: The Bends é um momento de transição do Radiohead. Está exatamente entre o britpop ortodoxo de Pablo Honey (com algumas guitarras vindas diretamente do grunge de Seattle) e o experimentalismo progressivo-eletrônico da obra-prima OK Computer (experimentalismo este que a partir de então ficaria cada vez mais eletrônico). Assim como o disco, os b-sides dos singles extraídos dele, reunidos no disco extra desta edição limitada, dão conta de demonstrar essa transição.

Uma das melhores faixas da coletânea é "Maquiladora" - o tipo de música que merecia entrar no próprio álbum, pela genial construção de seu arranjo. Ou então a delicada "How Can You Be Sure?" que lembra "Fake Plastic Trees" e por consequência talvez essa semelhança tenha sido o motivo dela ter "sobrado". Já "Punchdrunk Lovesick Singalong" e "Talk Show Host" apontam para o trabalho seguinte, enquanto "Killer Cars" ainda mostra uma banda coesa com a sonoridade do seu primeiro disco. Mas a lista de preciosidades continua: "The Trickster", "Lewis (Mistreated)", "Permanent Daylight", "India Rubber", "Banana Co." - todas canções com bastante força para terem entrado no álbum "oficial". Imagino que a escolha do repertório deve ter sido difícil para a banda.

Embora menos prolíficos, os b-sides de Pablo Honey e OK Computer também reúnem músicas que chamam a atenção como "Inside My Head", "Pop Is Dead", "Polyethylene", "Lull" e "Palo Alto". Mas a partir do polêmico Kid A (2000), já não consegui listar faixas que mereçam um destaque especial entre a seleção dos discos bônus. Mesmo assim, os fãs vão encontrar farto material inédito, versões ao vivo e remixes que devem valer o investimento - principalmente prá quem não tem ainda os discos do Radiohead. Prá quem já acompanhava a carreira deles e está na dúvida se vale a pena importar, minha recomendação é por estas três primeiras edições. Em especial, a do The Bends.
Prá terminar: a qualidade destes b-sides do Radiohead só vem a comprovar minha teoria de que pode-se medir a relevância de uma banda pelo nível de suas sobras de estúdio. Eles passam no teste com folga.
4 de nov. de 2009
27 de mai. de 2009
Juntando os pontos do passado
Hoje, ouvindo os B-Sides do The Cure, do box Join the Dots lançado em 2004, lembrei de uma das minhas primeiras experiências em uma banda de rock - uma brincadeira de adolescência que atendia pelo nome escabroso de "Rattle Blast".
O trio Rattle Blast (André no baixo e voz, Anderson nas programações de bateria e eu na guitarra) teve muita influência de Mr. Robert Smith & Cia. Na época eu tinha uma fita K7 com a coletânea dos singles do Cure de 1978 à 1986 num lado e alguns dos B-sides do mesmo período no outro, chamada Standing on a Beach.

Essa coletânea em K7 era diferente da mesma lançada em LP, e mais tarde em CD com quatro faixas a mais e outro nome, Staring At The Sea, justamente por causa desses B-sides que vinham de bônus. Anos depois, quando passei adiante aquela fita, ainda não tinha idéia da sua raridade pois ela só foi lançada nesse formato na Europa e, num verdadeiro milagre da indústria fonográfica nacional, aqui no Brasil também.
Como me arrependi de ter passado o K7 adiante...
Parecia uma história com final triste, mas eis que alguns anos atrás o Cure reuniu num box de 4 CDs todos os B-Sides de sua carreira até então, – este Join the Dots – e lá estavam elas... todas aquelas músicas obscuras que surgiam do lado B da minha coletânea ao pressionar o play do toca-fita e que embalaram as tardes de estudante e desempregado no apartamento em que morava no bairro Navegantes, me inspirando a criar algumas das músicas que surgiram naquela época como "Passado" (que depois virou "Cidade Deserto") e a instrumental homônima, "Rattle Blast".
Num destes "milagres" da informática moderna, que eu nem sequer imaginava há vinte anos atrás, pude "refazer" em MP3 a minha saudosa fita K7 e agora ela está ali, entre tantas playlists do iPod, com o mesmo nome, "Standing on a Beach", só para me trazer de volta esses momentos de felicidade involuntária e.... ah, que seja... de saudosismo também!
O trio Rattle Blast (André no baixo e voz, Anderson nas programações de bateria e eu na guitarra) teve muita influência de Mr. Robert Smith & Cia. Na época eu tinha uma fita K7 com a coletânea dos singles do Cure de 1978 à 1986 num lado e alguns dos B-sides do mesmo período no outro, chamada Standing on a Beach.

Essa coletânea em K7 era diferente da mesma lançada em LP, e mais tarde em CD com quatro faixas a mais e outro nome, Staring At The Sea, justamente por causa desses B-sides que vinham de bônus. Anos depois, quando passei adiante aquela fita, ainda não tinha idéia da sua raridade pois ela só foi lançada nesse formato na Europa e, num verdadeiro milagre da indústria fonográfica nacional, aqui no Brasil também.
Como me arrependi de ter passado o K7 adiante...
Parecia uma história com final triste, mas eis que alguns anos atrás o Cure reuniu num box de 4 CDs todos os B-Sides de sua carreira até então, – este Join the Dots – e lá estavam elas... todas aquelas músicas obscuras que surgiam do lado B da minha coletânea ao pressionar o play do toca-fita e que embalaram as tardes de estudante e desempregado no apartamento em que morava no bairro Navegantes, me inspirando a criar algumas das músicas que surgiram naquela época como "Passado" (que depois virou "Cidade Deserto") e a instrumental homônima, "Rattle Blast".
Num destes "milagres" da informática moderna, que eu nem sequer imaginava há vinte anos atrás, pude "refazer" em MP3 a minha saudosa fita K7 e agora ela está ali, entre tantas playlists do iPod, com o mesmo nome, "Standing on a Beach", só para me trazer de volta esses momentos de felicidade involuntária e.... ah, que seja... de saudosismo também!
4 de abr. de 2009
27 de mar. de 2009
Years of Refusal - Morrissey
No início deste ano, Steven Patrick Morrissey (que completará 50 anos no próximo dia 22 de maio) afirmou à revista americana "Filter" que estava pensando em se aposentar em breve, pois ficar muito tempo na estrada poderia comprometer sua criatividade. Se isso realmente vir a acontecer, o ex-integrante dos Smiths o terá feito na oportunidade certa, ou seja, em um fértil período criativo retomado a partir do disco You Are the Quarry, de 2004, confirmado em Ringleader of the Tormentors, de 2006, e agora atingindo seu auge com o lançamento deste Years of Refusal (Polydor, 2009).Na medida certa, Morrissey mais uma vez combina suas letras sobre desafetos e amores intangíveis, ora tristes, ora carregadas de sarcasmo, juntamente com melodias de apelo pop inegável. E os hits em sua carreira se acumulam: "Something Is Squeezing My Skull", "I'm Throwing My Arms Around Paris", "That's How People Grow Up"... Nesta última ele traduz de forma tão mordaz a sua desilusão com a idiossincrasia do ser humano. Já em "You Were Good In Your Time" encontramos a habilidade única de Morrissey em extrair a essência do sentimento de melancolia de uma composição e que eu não ouvia desde "I Know It's Over".
Mesmo os fãs mais radicais de sua seminal banda de Machester terão que dar o braço a torcer para a perfeita parceria que ele tem mantido com o guitarrista Boz Boorer, e que nos faz até esquecer de Johnny Marr quando acompanhamos seu trabalho solo. Embora os estilos sejam diferentes, o entrosamento entre os músicos (e isso se estende ao resto da banda que o acompanha atualmente) é seguramente o mesmo, tornando-se fundamental para que o estilo de Morrissey sobreviva por tanto tempo sem apelar para mudanças dramáticas em sua sonoridade.
Sinceramente, eu espero que Years of Refusal não seja o último álbum de Morrissey, antes de seu anunciado ostracismo. Mas se for, ao menos ele terá deixado o showbizz de forma digna, com um trabalho à altura do que sua carreira representa e da sua influência na música pop. E quando isso ocorrer, então teremos motivos de sobra para nos sentirmos realmente tristes.
13 de mar. de 2009
U2: No Line On The Horizon
Após cinco anos desde seu último trabalho inédito (How To Dismantle An Atomic Bomb, 2004) eis que os irlandeses do U2 lançam o seu 12º álbum de estúdio: No Line On The Horizon (Universal, 2009) e a observação mais evidente é que a banda saiu em busca de uma nova sonoridade, desta vez destacando-se pelos arranjos etéreos, camadas e camadas de teclados e guitarras que permeiam a produção e que lembram, num primeiro momento, a trilha sonora do filme The Million Dollar Hotel (2000) ou à "falsa trilha" de Passengers (1995). Não por acaso, em ambas foi evidente a influência de Brian Eno e Daniel Lanois, produtores usuais da banda desde The Unforgettable Fire (1985). Nesta nova busca, contudo, percebe-se aqui e ali traços de distintas fases da banda, o que pode ser explicado também pela mão de Steve Lillywhite, outro colaborador de longa data.

A faixa-título abre o CD exatamente com essas camadas de teclados e guitarras com efeito phaser, e nos apresenta um refrão poderoso que poderia desbancar facilmente a escolha de "Get On Your Boots" como primeiro single. Sua pungência e intensidade crescente são as mesmas que se sente em "Where The Streets Have No Name", que abria o The Joshua Tree (1987), ou em "Zooropa", a primeira faixa do álbum homônimo de 1993. Uma música perfeita para iniciar o novo disco e, quem sabe, os shows da próxima turnê.
A introdução quase techno de "Magnificent" (com direito a um teclado à la Depeche Mode) continua a dar o tom do trabalho. Mas não se enganem pelas aparências iniciais. O que se ouve a seguir é o velho e bom estilo de composição do U2. E no caso de "Magnificent" ele remete muito aos primeiros trabalhos da banda nos anos 80. Tanto na construção métrica da música quanto na letra - que é uma verdadeira doxologia (I was born to sing for you/I didn't have a choice but to lift you up). Não vejo outro sentido para as palavras do Bono nela; ele não escrevia algo assim tão explícito sobre o assunto espiritualidade desde "Gloria", de October (1981). E ele mesmo confirmou isso na entrevista para a revista Rolling Stone: "Há esse tema recorrente de rendição e devoção e todas essas coisas que acho realmente difíceis.Toda música para mim é algum tipo de louvor".
"Moment Of Surrender" surge como o momento épico do disco: uma balada de sete minutos em forma de hino com vocais flertando com o gospel num refrão apoteótico e com um final cujos "oh-oh-oh-ohs" não ficarão devendo nada aos de "Pride (In The Name Of Love)" quando apresentada ao vivo. Percebam que ela soa como uma continuação de "So Cruel", do Achtung Baby (1991). Reparem na mesma cadência e tensão que ambas transmitem - aquele clima envolvente e pesado por causa do tema da letra. Brian Eno explica que nessa música o personagem na voz de Bono, está com o coração quebrantado, sofrendo de uma terrível agonia e extremamente vulnerável. Ainda reforçando a comparação, ambas são construídas sobre um instrumental repetitivo, possuem um crescendo no decorrer da música e compartilham de refrões carregados de melancolia. (Ouçam as duas e comprovem!) A letra lembra também outra música igualmente "angustiante" da banda: "If God Will Send His Angels", do Pop (1997). A principal diferença fica por conta da harmonia de coral do refrão de "Moment..." que parece transmitir certa redenção (como o próprio título diz) e esperança para o tal personagem da canção. E, de quebra, The Edge nos presenteia com um maravilhoso solo feito com um punhado de notas apenas!
Por falar no guitarrista, seus tradicionais acordes econômicos aparecem de volta em "Unknown Caller". Com um início minimalista dos instrumentos, o vocal dá a dica que se trata de um lento amanhecer (Sunshine, sunshine) que finalmente ocorre com a entrada do dedilhado mais alto da guitarra. Na letra, um assunto recorrente para o Bono: o esforço em escutar a voz de Deus. Com essa música, o que poderíamos chamar de "primeiro ato" do disco - aquele em que eles mais exploram novos horizontes sonoros - se encerra de forma contundente.
"I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" é certamente a canção mais pop do disco. Brilhantemente pop! Alguns podem até dizer que é uma canção tola, mas ela está ali prá mostrar que rock também é diversão e que o U2 ainda está em plena forma quando se trata de compor deliciosas melodias de amor. Seu arranjo também é, de todas as músicas novas, o que mais se parece com a retomada ao som básico da banda ocorrida no disco de 2000, All That You Can't Leave Behind.
Nas duas faixas seguintes, os riffs pesados de "Get On Your Boots" e "Stand Up Comedy" apontam para um rock mais cru e moderno, mas com influências bem diferentes. Diante do álbum como um todo é que se entende porque "Get On Your Boots" foi escolhida como primeiro single. Ela está meio deslocada ali... quase fazendo uma ligação com "Vertigo", o primeiro single do disco anterior - em especial o riff "Zeppeliano" marcante, as estrofes quase "faladas" de Bono, as poucas intervenções da guitarra durante elas, e por fim um refrão radiofônico - sem esquecer a "quebrada" genial da parte Let me in the sound, que fará a ligação com "FEZ-Being Born" mais adiante.
Já "Stand Up Comedy" revisita o groove sessentista da guitarra de Jimmi Hendrix com bastante autoridade. A letra revela que Bono não perdeu a inspiração para fazer canções engajadas socialmente, desta vez convocando todos a defenderem seus ideais, mesmo quando se sentirem desmotivados, num sutil trocadilho com o estilo de comédia comum nos EUA onde o artista está sozinho em pé, frente a platéia, quase que acuado pela sua própria tarefa a realizar: Out from under your beds/C’mon ye people/Stand up for your love!
Muito se comentou pela mídia que haveriam influências de sonoridades orientais neste álbum. De fato, o U2 encontra o Marrocos em "FEZ-Being Born", mas de forma muito sutil. A música toda é contornada pelo inconfundível estilo do Edge, notas esparsas carregadas de efeitos chorus e delay, enquanto Adam Clayton e Larry Mullen Jr. conduzem, de forma quase marcial, baixo e bateria. Os poucos versos cantandos (às vezes em côro) versam sobre um tema "estradeiro". E funcionam perfeitamente com o clima de road song que ela transmite.
"White As Snow" e "Cedars Of Lebanon" são os exemplos mais evidentes da semelhança com The Million Dollar Hotel e Passengers, e poderiam ter saído das sessões de gravação destes discos tranquilamente. A melodia do hino cristão "Ó Vem, Emanuel!" (baseado em um antigo canto gregoriano do século XV) serve de base para "White As Snow" e o seu arranjo delicado, mas correto, impõe uma incrível carga emocional para a letra que Bono fez sobre a guerra no Afeganistão. "Cedars..." também compartilha do mesmo tema, mas é uma canção em cujas estrofes não há melodia. Bono apenas conversa com o ouvinte, na pele de um correspondente de guerra. Apesar da letra triste e profunda (Choose your enemies carefully, 'cause they will define you/Make them interesting, 'cause in some ways they will mind you/They're not there in the beginning, but when your story ends/Gonna last with you longer than your friends), musicalmente ela acaba sendo a menos interessante deste trabalho.
"Breath" não é a última música do álbum, mas deixei prá falar dela no final porque essa canção me intriga muito. Há alguma coisa nela que me incomoda - talvez os vocais "cuspidos" por Bono nas estrofes - mas ao mesmo tempo há também uma grandiosidade velada no seu arranjo - do ritmo tribal da bateria no início, passando pelo riff simples mas eficaz da guitarra e especialmente no refrão que desafa I can breathe! Ou então no maravilhoso trecho da letra que diz: We are people borne of sound. Yes, Bono, we are!
Afinal, No Line On The Horizon traz alguma novidade para a discografia do U2? Sim. E embora não represente exatamente uma "revolução" ou "ousadia" na sonoridade da banda, como fizeram em outras épocas suas obras-primas The Joshua Tree e Achtung Baby, ele se mostra mais como uma evolução dos últimos álbuns, pontuada pela experiência adquirida em seus mais de trinta anos de carreira. Um amadurecimento das propostas musicais deles para os anos 2000s. Neste contexto, sim, ele pode ser considerado o melhor disco do U2 na década. E superar a si mesmo já é meio caminho andado para assegurar mais uma vez o posto de melhor banda do planeta.

A faixa-título abre o CD exatamente com essas camadas de teclados e guitarras com efeito phaser, e nos apresenta um refrão poderoso que poderia desbancar facilmente a escolha de "Get On Your Boots" como primeiro single. Sua pungência e intensidade crescente são as mesmas que se sente em "Where The Streets Have No Name", que abria o The Joshua Tree (1987), ou em "Zooropa", a primeira faixa do álbum homônimo de 1993. Uma música perfeita para iniciar o novo disco e, quem sabe, os shows da próxima turnê.
A introdução quase techno de "Magnificent" (com direito a um teclado à la Depeche Mode) continua a dar o tom do trabalho. Mas não se enganem pelas aparências iniciais. O que se ouve a seguir é o velho e bom estilo de composição do U2. E no caso de "Magnificent" ele remete muito aos primeiros trabalhos da banda nos anos 80. Tanto na construção métrica da música quanto na letra - que é uma verdadeira doxologia (I was born to sing for you/I didn't have a choice but to lift you up). Não vejo outro sentido para as palavras do Bono nela; ele não escrevia algo assim tão explícito sobre o assunto espiritualidade desde "Gloria", de October (1981). E ele mesmo confirmou isso na entrevista para a revista Rolling Stone: "Há esse tema recorrente de rendição e devoção e todas essas coisas que acho realmente difíceis.Toda música para mim é algum tipo de louvor".
"Moment Of Surrender" surge como o momento épico do disco: uma balada de sete minutos em forma de hino com vocais flertando com o gospel num refrão apoteótico e com um final cujos "oh-oh-oh-ohs" não ficarão devendo nada aos de "Pride (In The Name Of Love)" quando apresentada ao vivo. Percebam que ela soa como uma continuação de "So Cruel", do Achtung Baby (1991). Reparem na mesma cadência e tensão que ambas transmitem - aquele clima envolvente e pesado por causa do tema da letra. Brian Eno explica que nessa música o personagem na voz de Bono, está com o coração quebrantado, sofrendo de uma terrível agonia e extremamente vulnerável. Ainda reforçando a comparação, ambas são construídas sobre um instrumental repetitivo, possuem um crescendo no decorrer da música e compartilham de refrões carregados de melancolia. (Ouçam as duas e comprovem!) A letra lembra também outra música igualmente "angustiante" da banda: "If God Will Send His Angels", do Pop (1997). A principal diferença fica por conta da harmonia de coral do refrão de "Moment..." que parece transmitir certa redenção (como o próprio título diz) e esperança para o tal personagem da canção. E, de quebra, The Edge nos presenteia com um maravilhoso solo feito com um punhado de notas apenas!
Por falar no guitarrista, seus tradicionais acordes econômicos aparecem de volta em "Unknown Caller". Com um início minimalista dos instrumentos, o vocal dá a dica que se trata de um lento amanhecer (Sunshine, sunshine) que finalmente ocorre com a entrada do dedilhado mais alto da guitarra. Na letra, um assunto recorrente para o Bono: o esforço em escutar a voz de Deus. Com essa música, o que poderíamos chamar de "primeiro ato" do disco - aquele em que eles mais exploram novos horizontes sonoros - se encerra de forma contundente.
"I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" é certamente a canção mais pop do disco. Brilhantemente pop! Alguns podem até dizer que é uma canção tola, mas ela está ali prá mostrar que rock também é diversão e que o U2 ainda está em plena forma quando se trata de compor deliciosas melodias de amor. Seu arranjo também é, de todas as músicas novas, o que mais se parece com a retomada ao som básico da banda ocorrida no disco de 2000, All That You Can't Leave Behind.
Nas duas faixas seguintes, os riffs pesados de "Get On Your Boots" e "Stand Up Comedy" apontam para um rock mais cru e moderno, mas com influências bem diferentes. Diante do álbum como um todo é que se entende porque "Get On Your Boots" foi escolhida como primeiro single. Ela está meio deslocada ali... quase fazendo uma ligação com "Vertigo", o primeiro single do disco anterior - em especial o riff "Zeppeliano" marcante, as estrofes quase "faladas" de Bono, as poucas intervenções da guitarra durante elas, e por fim um refrão radiofônico - sem esquecer a "quebrada" genial da parte Let me in the sound, que fará a ligação com "FEZ-Being Born" mais adiante.
Já "Stand Up Comedy" revisita o groove sessentista da guitarra de Jimmi Hendrix com bastante autoridade. A letra revela que Bono não perdeu a inspiração para fazer canções engajadas socialmente, desta vez convocando todos a defenderem seus ideais, mesmo quando se sentirem desmotivados, num sutil trocadilho com o estilo de comédia comum nos EUA onde o artista está sozinho em pé, frente a platéia, quase que acuado pela sua própria tarefa a realizar: Out from under your beds/C’mon ye people/Stand up for your love!
Muito se comentou pela mídia que haveriam influências de sonoridades orientais neste álbum. De fato, o U2 encontra o Marrocos em "FEZ-Being Born", mas de forma muito sutil. A música toda é contornada pelo inconfundível estilo do Edge, notas esparsas carregadas de efeitos chorus e delay, enquanto Adam Clayton e Larry Mullen Jr. conduzem, de forma quase marcial, baixo e bateria. Os poucos versos cantandos (às vezes em côro) versam sobre um tema "estradeiro". E funcionam perfeitamente com o clima de road song que ela transmite.
"White As Snow" e "Cedars Of Lebanon" são os exemplos mais evidentes da semelhança com The Million Dollar Hotel e Passengers, e poderiam ter saído das sessões de gravação destes discos tranquilamente. A melodia do hino cristão "Ó Vem, Emanuel!" (baseado em um antigo canto gregoriano do século XV) serve de base para "White As Snow" e o seu arranjo delicado, mas correto, impõe uma incrível carga emocional para a letra que Bono fez sobre a guerra no Afeganistão. "Cedars..." também compartilha do mesmo tema, mas é uma canção em cujas estrofes não há melodia. Bono apenas conversa com o ouvinte, na pele de um correspondente de guerra. Apesar da letra triste e profunda (Choose your enemies carefully, 'cause they will define you/Make them interesting, 'cause in some ways they will mind you/They're not there in the beginning, but when your story ends/Gonna last with you longer than your friends), musicalmente ela acaba sendo a menos interessante deste trabalho.
"Breath" não é a última música do álbum, mas deixei prá falar dela no final porque essa canção me intriga muito. Há alguma coisa nela que me incomoda - talvez os vocais "cuspidos" por Bono nas estrofes - mas ao mesmo tempo há também uma grandiosidade velada no seu arranjo - do ritmo tribal da bateria no início, passando pelo riff simples mas eficaz da guitarra e especialmente no refrão que desafa I can breathe! Ou então no maravilhoso trecho da letra que diz: We are people borne of sound. Yes, Bono, we are!
Afinal, No Line On The Horizon traz alguma novidade para a discografia do U2? Sim. E embora não represente exatamente uma "revolução" ou "ousadia" na sonoridade da banda, como fizeram em outras épocas suas obras-primas The Joshua Tree e Achtung Baby, ele se mostra mais como uma evolução dos últimos álbuns, pontuada pela experiência adquirida em seus mais de trinta anos de carreira. Um amadurecimento das propostas musicais deles para os anos 2000s. Neste contexto, sim, ele pode ser considerado o melhor disco do U2 na década. E superar a si mesmo já é meio caminho andado para assegurar mais uma vez o posto de melhor banda do planeta.
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