13 de mar. de 2009

U2: No Line On The Horizon

Após cinco anos desde seu último trabalho inédito (How To Dismantle An Atomic Bomb, 2004) eis que os irlandeses do U2 lançam o seu 12º álbum de estúdio: No Line On The Horizon (Universal, 2009) e a observação mais evidente é que a banda saiu em busca de uma nova sonoridade, desta vez destacando-se pelos arranjos etéreos, camadas e camadas de teclados e guitarras que permeiam a produção e que lembram, num primeiro momento, a trilha sonora do filme The Million Dollar Hotel (2000) ou à "falsa trilha" de Passengers (1995). Não por acaso, em ambas foi evidente a influência de Brian Eno e Daniel Lanois, produtores usuais da banda desde The Unforgettable Fire (1985). Nesta nova busca, contudo, percebe-se aqui e ali traços de distintas fases da banda, o que pode ser explicado também pela mão de Steve Lillywhite, outro colaborador de longa data.


A faixa-título abre o CD exatamente com essas camadas de teclados e guitarras com efeito phaser, e nos apresenta um refrão poderoso que poderia desbancar facilmente a escolha de "Get On Your Boots" como primeiro single. Sua pungência e intensidade crescente são as mesmas que se sente em "Where The Streets Have No Name", que abria o The Joshua Tree (1987), ou em "Zooropa", a primeira faixa do álbum homônimo de 1993. Uma música perfeita para iniciar o novo disco e, quem sabe, os shows da próxima turnê.

A introdução quase techno de "Magnificent" (com direito a um teclado à la Depeche Mode) continua a dar o tom do trabalho. Mas não se enganem pelas aparências iniciais. O que se ouve a seguir é o velho e bom estilo de composição do U2. E no caso de "Magnificent" ele remete muito aos primeiros trabalhos da banda nos anos 80. Tanto na construção métrica da música quanto na letra - que é uma verdadeira doxologia (I was born to sing for you/I didn't have a choice but to lift you up). Não vejo outro sentido para as palavras do Bono nela; ele não escrevia algo assim tão explícito sobre o assunto espiritualidade desde "Gloria", de October (1981). E ele mesmo confirmou isso na entrevista para a revista Rolling Stone: "Há esse tema recorrente de rendição e devoção e todas essas coisas que acho realmente difíceis.Toda música para mim é algum tipo de louvor".

"Moment Of Surrender" surge como o momento épico do disco: uma balada de sete minutos em forma de hino com vocais flertando com o gospel num refrão apoteótico e com um final cujos "oh-oh-oh-ohs" não ficarão devendo nada aos de "Pride (In The Name Of Love)" quando apresentada ao vivo. Percebam que ela soa como uma continuação de "So Cruel", do Achtung Baby (1991). Reparem na mesma cadência e tensão que ambas transmitem - aquele clima envolvente e pesado por causa do tema da letra. Brian Eno explica que nessa música o personagem na voz de Bono, está com o coração quebrantado, sofrendo de uma terrível agonia e extremamente vulnerável. Ainda reforçando a comparação, ambas são construídas sobre um instrumental repetitivo, possuem um crescendo no decorrer da música e compartilham de refrões carregados de melancolia. (Ouçam as duas e comprovem!) A letra lembra também outra música igualmente "angustiante" da banda: "If God Will Send His Angels", do Pop (1997). A principal diferença fica por conta da harmonia de coral do refrão de "Moment..." que parece transmitir certa redenção (como o próprio título diz) e esperança para o tal personagem da canção. E, de quebra, The Edge nos presenteia com um maravilhoso solo feito com um punhado de notas apenas!

Por falar no guitarrista, seus tradicionais acordes econômicos aparecem de volta em "Unknown Caller". Com um início minimalista dos instrumentos, o vocal dá a dica que se trata de um lento amanhecer (Sunshine, sunshine) que finalmente ocorre com a entrada do dedilhado mais alto da guitarra. Na letra, um assunto recorrente para o Bono: o esforço em escutar a voz de Deus. Com essa música, o que poderíamos chamar de "primeiro ato" do disco - aquele em que eles mais exploram novos horizontes sonoros - se encerra de forma contundente.

"I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" é certamente a canção mais pop do disco. Brilhantemente pop! Alguns podem até dizer que é uma canção tola, mas ela está ali prá mostrar que rock também é diversão e que o U2 ainda está em plena forma quando se trata de compor deliciosas melodias de amor. Seu arranjo também é, de todas as músicas novas, o que mais se parece com a retomada ao som básico da banda ocorrida no disco de 2000, All That You Can't Leave Behind.

Nas duas faixas seguintes, os riffs pesados de "Get On Your Boots" e "Stand Up Comedy" apontam para um rock mais cru e moderno, mas com influências bem diferentes. Diante do álbum como um todo é que se entende porque "Get On Your Boots" foi escolhida como primeiro single. Ela está meio deslocada ali... quase fazendo uma ligação com "Vertigo", o primeiro single do disco anterior - em especial o riff "Zeppeliano" marcante, as estrofes quase "faladas" de Bono, as poucas intervenções da guitarra durante elas, e por fim um refrão radiofônico - sem esquecer a "quebrada" genial da parte Let me in the sound, que fará a ligação com "FEZ-Being Born" mais adiante.

Já "Stand Up Comedy" revisita o groove sessentista da guitarra de Jimmi Hendrix com bastante autoridade. A letra revela que Bono não perdeu a inspiração para fazer canções engajadas socialmente, desta vez convocando todos a defenderem seus ideais, mesmo quando se sentirem desmotivados, num sutil trocadilho com o estilo de comédia comum nos EUA onde o artista está sozinho em pé, frente a platéia, quase que acuado pela sua própria tarefa a realizar: Out from under your beds/C’mon ye people/Stand up for your love!

Muito se comentou pela mídia que haveriam influências de sonoridades orientais neste álbum. De fato, o U2 encontra o Marrocos em "FEZ-Being Born", mas de forma muito sutil. A música toda é contornada pelo inconfundível estilo do Edge, notas esparsas carregadas de efeitos chorus e delay, enquanto Adam Clayton e Larry Mullen Jr. conduzem, de forma quase marcial, baixo e bateria. Os poucos versos cantandos (às vezes em côro) versam sobre um tema "estradeiro". E funcionam perfeitamente com o clima de road song que ela transmite.

"White As Snow" e "Cedars Of Lebanon" são os exemplos mais evidentes da semelhança com The Million Dollar Hotel e Passengers, e poderiam ter saído das sessões de gravação destes discos tranquilamente. A melodia do hino cristão "Ó Vem, Emanuel!" (baseado em um antigo canto gregoriano do século XV) serve de base para "White As Snow" e o seu arranjo delicado, mas correto, impõe uma incrível carga emocional para a letra que Bono fez sobre a guerra no Afeganistão. "Cedars..." também compartilha do mesmo tema, mas é uma canção em cujas estrofes não há melodia. Bono apenas conversa com o ouvinte, na pele de um correspondente de guerra. Apesar da letra triste e profunda (Choose your enemies carefully, 'cause they will define you/Make them interesting, 'cause in some ways they will mind you/They're not there in the beginning, but when your story ends/Gonna last with you longer than your friends), musicalmente ela acaba sendo a menos interessante deste trabalho.

"Breath" não é a última música do álbum, mas deixei prá falar dela no final porque essa canção me intriga muito. Há alguma coisa nela que me incomoda - talvez os vocais "cuspidos" por Bono nas estrofes - mas ao mesmo tempo há também uma grandiosidade velada no seu arranjo - do ritmo tribal da bateria no início, passando pelo riff simples mas eficaz da guitarra e especialmente no refrão que desafa I can breathe! Ou então no maravilhoso trecho da letra que diz: We are people borne of sound. Yes, Bono, we are!

Afinal, No Line On The Horizon traz alguma novidade para a discografia do U2? Sim. E embora não represente exatamente uma "revolução" ou "ousadia" na sonoridade da banda, como fizeram em outras épocas suas obras-primas The Joshua Tree e Achtung Baby, ele se mostra mais como uma evolução dos últimos álbuns, pontuada pela experiência adquirida em seus mais de trinta anos de carreira. Um amadurecimento das propostas musicais deles para os anos 2000s. Neste contexto, sim, ele pode ser considerado o melhor disco do U2 na década. E superar a si mesmo já é meio caminho andado para assegurar mais uma vez o posto de melhor banda do planeta.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei bastante e também concordo com o que foi escrito,principalmente diante de tanta coisa que ouvi e li!