15 de jan. de 2010

We've Moved On...

Todo o conteúdo do OmniBlog foi movido para o Wordpress no endereço: dcolsson.wordpress.com. Portanto, a partir de agora ele não será mais atualizado, mas você poderá acompanhar os mesmos assuntos que comento por aqui no novo blog. Os posts antigos continuarão neste endereço por tempo indeterminado.

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5 de jan. de 2010

Ano novo, lembranças antigas

Neste último feriadão pude matar a saudade dos tempos de adolescente. Logo que casei, eu havia juntado vários livros (policiais e FC) e HQs que comprei ou ganhei ao longo dos anos 80 e início dos 90, juntamente com outras tralhas, e guardei dentro de algumas caixas de papelão na casa do meu sogro, já que não haveria lugar no apartamento. Isso foi há uns 13 anos atrás. Sem eu saber na época, meu sogro subiu as caixas para o sótão e, fora da minha vista, acabei esquecendo-as completamente.

No entanto aproveitei a folga do dia 1º para finalmente ir atrás delas. Desci as 4 caixas que estavam no sótão. Abri-las foi uma verdadeira viagem no tempo...

Começando pelos vários romances da Agatha Christie (incluindo meus favoritos: "O Assassinato de Roger Ackroyd" e "O Cinco Porquinhos"); e do Edgar Wallace, que foi minha iniciação nas histórias policiais – "A Porta das Sete Chaves" está eternamente no meu Top 5 de livros de suspense. Havia também Sherlock Holmes, Perry Rhodan (eu era um cliente fiel da Ediouro) e a coleção completa da Isaac Asimov Magazine (os 25 volumes, todos em ótimo estado). Além de um raro álbum ilustrado de sci-fi art dos anos 70, com o sugestivo título de "Manual da Sociedade de Comércio da Terra: Naves Espaciais de 2000 a 2100". Se Wallace serviu de inspiração para as histórias de mistério que eu gostava de imginar e escrever, este livro do Stewart Cowley foi fonte de idéias para as naves que eu desenhava naquele tempo.

A viagem continuou pelas coleções de fascículos que estavam nas caixas: "Ciência Abril" (completa e iniciada pelo eu pai ainda na minha infância), "Astronomia" (também completa e publicada na época do hype em torno da passagem do Cometa Halley) e até dois volumes da "Input", uma enciclopédia de computação para micros de 8-bits. Alguém com bem mais de 30 anos, levante o braço se lembra de alguma dessas coleções!

Entre os quadrinhos, reencontrei coisas que julgava ter perdido, como a primeira edição nacional (lançada em quatro volumes) do "Batman, o Cavaleiro das Trevas". Também toda saga da "Morte do Super-Homem" ("Morte", "Funeral para um Amigo", "Além da Morte" e o "Retorno") e da "Crise nas Infinitas Terras". Os primeiros números da "Espada Selvagem de Conan" em cores (eu também tinha as revistas em P&B desde o nº 1, mas pelo visto não sobreviveram); quadrinizações de filmes, exemplares raros de Star Trek, Flash Gordon, Fantasma; e algumas graphic novels ("Aliens", "Hellraiser", "Clássicos Ilustrados")...

Eu sei que tive muito mais coisa de quadrinhos (entre Marvel, DC e Disney), mas parece que na transição para vida adulta devo ter encucado que já não haveria espaço mais para os hobbies da adolescência, e me livrei de grande parte deles. Ou então para dar mais espaço a paixão pela música que comecei a alimentar nessa mesma época. De qualquer forma foi uma pena...

As HQs que separei nessas caixas por algum motivo eu penso em manter para meu filho ler em breve. Ou então voltar a matar a saudade como fiz agora. Mesmo em tempos de downloads desenfreados, sou defensor desse velho e prático hábito de folhear as páginas de uma revista ou livro.

30 de dez. de 2009

O melhor de 2009

Sem muita enrolação, aqui estão os meus eleitos deste ano:

1. No Line On The Horizon (U2)
2. Years Of Refusal (Morrissey)
3. Wilco (Wilco)
4. Them Crooked Vultures (Them Crooked Vultures)
5. Backspacer (Pearl Jam)
6. To Lose My Life (White Lies)
7. Tonight: Franz Ferdinand (Franz Ferdinand)
8. Journal For Plague Lovers (Manic Street Preachers)
9. Ignore The Ignorant (The Cribs)
10. The Resistance (Muse)

Eu achei um ano atípico. Fraco em todos os sentidos. Nenhum álbum realmente marcante – algo que daqui a dez anos você se lembre do quanto influenciou novos artistas e trabalhos ou trouxe algo de realmente inovador. Além disso, confesso que sou um tanto tendencioso ao selecionar os melhores do ano pois naturalmente faço uma pré-seleção do que quero ouvir (bandas conhecidas, discos bastante comentados pela crítica ou indicações de amigos acabam tendo preferência) e portanto, muita coisa acaba ficando de fora da avaliação. Também não vivo do ofício de resenhista musical, não tenho essa obrigação, é apenas um exercício narcisista :). Então, destaco aqueles que realmente ouvi, gostei de primeira e voltei a ouvir outras vezes. Os que não passaram por essa triagem, sinto muito, não tiveram muito a me dizer.

Sendo assim, o U2, apesar de não ter feito sua obra-prima da década como alguns esperavam, lançou um trabalho ousado mesmo assim, no sentido de experimentar caminhos sonoros mais etéreos, sofisticados e igualmente inspirados em seu No Line On The Horizon. Num ano de poucos destaques entre as novidades, o "velho" acaba se renovando outra vez e conquistando o 1º lugar.

Mossissey também se despede de sua carreira (quem sabe?) com um disco coeso e de bastante energia. O Wilco quase repete o feito do anterior Sky Blue Sky... não foi tão perfeito assim, mas ainda lançou um grande disco. Já o super-trio do Them Crooked Vultures ficou responsável por trazer os ares de novidade na minha lista com um ótimo trabalho de estréia. O Pearl Jam se destaca por ter lançado um álbum "curto e grosso" e o White Lies, encerrando a década que reviveu os anos 80, debutou com uma coleção de canções cheias de referências àquela época, o que sempre me agrada.

Franz Ferdinand e Manic Street Preachers lançaram discos bons que, novamente, por conta de um ano de trabalhos bastante medianos, acabaram aparecendo no meu Top 10 . E não seria justo citar o Morrissey e deixar de fora seu ex-colega de banda, Johnny Marr, que voltou a fazer diferença nas guitarras junto ao The Cribs. Por fim, o Muse finalmente conseguiu se desligar das semelhanças com o Radiohead e lançar um disco que me cativou.

Cabem aqui menções honrosas para: The Eternal (Sonic Youth) e 21st Century Breakdown (Green Day). Eu incluiria até o a-ha que retornou aos arranjos eletrônicos dos primeiros discos, mas casados com um pop mais maduro, em seu Foot Of The Mountain. Neste momento é assim que sinto em relação ao melhor de 2009, mas a música é o tipo de arte que precisa de tempo para ser apreciada com mais profundidade. Portanto, pode até ser que daqui a meses, alguns destes álbuns ainda venham a trocar de posição e outros acabem aparecendo na lista também... :D

Tenham um feliz 2010!

14 de dez. de 2009

A Todo Volume

Uma pequena nota sobre o documentário A Todo Volume (It Might Get Loud, 2009), de Davis Guggenheim, que assisti no fim-de-semana. Em duas palavras: muito bom! Altamente recomendado para os amantes da guitarra e, em especial, fãs do U2, Led Zeppelin e White Stripes/Raconteurs, pois os protagonistas são justamente os guitarristas: The Edge, Jimmy Page e Jack White.

Logo que fiquei sabendo desse filme, eu pensei (como muitos devem ter feito também) que talvez o Edge não fosse o guitarrista mais indicado para o documentário; que talvez se esperasse alguém com um perfil mais tradicional de guitar hero, ainda mais ali no meio de uma lenda viva como o Jimmy Page ou de uma revelação incontestável como o Jack White. Sim, confesso que fiquei com o receio alheio de que talvez ele ficasse deslocado, que o diretor não soubesse valorizar a relevância dele na história da guitarra - que é a proposta do filme.

Ledo engano!

Guggenheim teve a excelente sacada em pegar uma figura de cada geração do rock e o Edge é um ótimo representante dos guitarristas que surgiram nos anos 80, na explosão do pós-punk, da new wave, e da máxima do "do-it-yourself". Numa época em que todos estavam cansados da super-valorzação do solo na construção das músicas, do virtuosismo dos músicos e daquela megalomania progressiva dos anos 70. E dentro deste conceito, o Edge, com seus acordes econômicos e a profusão de efeitos que utiliza, teve e tem tanto a contribuir quanto os outros dois. Possui tanta genialidade quanto eles. Tocar guitarra não é apenas habilidade ou velocidade. É, acima de tudo, sentimento, personalidade, amor pelo instrumento. E o documentário deixa isso bem claro.

Cenas prá ficarem na memória prá sempre: The Edge, Jimmy Page e Jack White tocando os riffs de "I Will Follow" e de "In My Time of Dying"! Simplesmente cabuloso!

13 de nov. de 2009

Comprovando a teoria

Eis-me novamente discorrendo sobre b-sides. Desta vez são os do Radiohead, que está re-editando toda a sua discografia em edições de luxo e recheadas de sobras de estúdio, faixas ao vivo e versões alternativas. Sei que os lançamentos já chegaram no Hail To The Thief, de 2003, mas vou me concentrar apenas nos três primeiros: Pablo Honey (1993), The Bends (1995) e OK Computer (1997). Justamente os que considero terem a melhor seleção de b-sides da banda de Oxford liderada por Thom Yorke.



Começando com o melhor dos três: The Bends é um momento de transição do Radiohead. Está exatamente entre o britpop ortodoxo de Pablo Honey (com algumas guitarras vindas diretamente do grunge de Seattle) e o experimentalismo progressivo-eletrônico da obra-prima OK Computer (experimentalismo este que a partir de então ficaria cada vez mais eletrônico). Assim como o disco, os b-sides dos singles extraídos dele, reunidos no disco extra desta edição limitada, dão conta de demonstrar essa transição.



Uma das melhores faixas da coletânea é "Maquiladora" - o tipo de música que merecia entrar no próprio álbum, pela genial construção de seu arranjo. Ou então a delicada "How Can You Be Sure?" que lembra "Fake Plastic Trees" e por consequência talvez essa semelhança tenha sido o motivo dela ter "sobrado". Já "Punchdrunk Lovesick Singalong" e "Talk Show Host" apontam para o trabalho seguinte, enquanto "Killer Cars" ainda mostra uma banda coesa com a sonoridade do seu primeiro disco. Mas a lista de preciosidades continua: "The Trickster", "Lewis (Mistreated)", "Permanent Daylight", "India Rubber", "Banana Co." - todas canções com bastante força para terem entrado no álbum "oficial". Imagino que a escolha do repertório deve ter sido difícil para a banda.



Embora menos prolíficos, os b-sides de Pablo Honey e OK Computer também reúnem músicas que chamam a atenção como "Inside My Head", "Pop Is Dead", "Polyethylene", "Lull" e "Palo Alto". Mas a partir do polêmico Kid A (2000), já não consegui listar faixas que mereçam um destaque especial entre a seleção dos discos bônus. Mesmo assim, os fãs vão encontrar farto material inédito, versões ao vivo e remixes que devem valer o investimento - principalmente prá quem não tem ainda os discos do Radiohead. Prá quem já acompanhava a carreira deles e está na dúvida se vale a pena importar, minha recomendação é por estas três primeiras edições. Em especial, a do The Bends.

Prá terminar: a qualidade destes b-sides do Radiohead só vem a comprovar minha teoria de que pode-se medir a relevância de uma banda pelo nível de suas sobras de estúdio. Eles passam no teste com folga.

4 de nov. de 2009

27 de mai. de 2009

Juntando os pontos do passado

Hoje, ouvindo os B-Sides do The Cure, do box Join the Dots lançado em 2004, lembrei de uma das minhas primeiras experiências em uma banda de rock - uma brincadeira de adolescência que atendia pelo nome escabroso de "Rattle Blast".

O trio Rattle Blast (André no baixo e voz, Anderson nas programações de bateria e eu na guitarra) teve muita influência de Mr. Robert Smith & Cia. Na época eu tinha uma fita K7 com a coletânea dos singles do Cure de 1978 à 1986 num lado e alguns dos B-sides do mesmo período no outro, chamada Standing on a Beach.





Essa coletânea em K7 era diferente da mesma lançada em LP, e mais tarde em CD com quatro faixas a mais e outro nome, Staring At The Sea, justamente por causa desses B-sides que vinham de bônus. Anos depois, quando passei adiante aquela fita, ainda não tinha idéia da sua raridade pois ela só foi lançada nesse formato na Europa e, num verdadeiro milagre da indústria fonográfica nacional, aqui no Brasil também.

Como me arrependi de ter passado o K7 adiante...

Parecia uma história com final triste, mas eis que alguns anos atrás o Cure reuniu num box de 4 CDs todos os B-Sides de sua carreira até então, – este Join the Dots – e lá estavam elas... todas aquelas músicas obscuras que surgiam do lado B da minha coletânea ao pressionar o play do toca-fita e que embalaram as tardes de estudante e desempregado no apartamento em que morava no bairro Navegantes, me inspirando a criar algumas das músicas que surgiram naquela época como "Passado" (que depois virou "Cidade Deserto") e a instrumental homônima, "Rattle Blast".

Num destes "milagres" da informática moderna, que eu nem sequer imaginava há vinte anos atrás, pude "refazer" em MP3 a minha saudosa fita K7 e agora ela está ali, entre tantas playlists do iPod, com o mesmo nome, "Standing on a Beach", só para me trazer de volta esses momentos de felicidade involuntária e.... ah, que seja... de saudosismo também!

4 de abr. de 2009

27 de mar. de 2009

Years of Refusal - Morrissey

No início deste ano, Steven Patrick Morrissey (que completará 50 anos no próximo dia 22 de maio) afirmou à revista americana "Filter" que estava pensando em se aposentar em breve, pois ficar muito tempo na estrada poderia comprometer sua criatividade. Se isso realmente vir a acontecer, o ex-integrante dos Smiths o terá feito na oportunidade certa, ou seja, em um fértil período criativo retomado a partir do disco You Are the Quarry, de 2004, confirmado em Ringleader of the Tormentors, de 2006, e agora atingindo seu auge com o lançamento deste Years of Refusal (Polydor, 2009).

Na medida certa, Morrissey mais uma vez combina suas letras sobre desafetos e amores intangíveis, ora tristes, ora carregadas de sarcasmo, juntamente com melodias de apelo pop inegável. E os hits em sua carreira se acumulam: "Something Is Squeezing My Skull", "I'm Throwing My Arms Around Paris", "That's How People Grow Up"... Nesta última ele traduz de forma tão mordaz a sua desilusão com a idiossincrasia do ser humano. Já em "You Were Good In Your Time" encontramos a habilidade única de Morrissey em extrair a essência do sentimento de melancolia de uma composição e que eu não ouvia desde "I Know It's Over".

Mesmo os fãs mais radicais de sua seminal banda de Machester terão que dar o braço a torcer para a perfeita parceria que ele tem mantido com o guitarrista Boz Boorer, e que nos faz até esquecer de Johnny Marr quando acompanhamos seu trabalho solo. Embora os estilos sejam diferentes, o entrosamento entre os músicos (e isso se estende ao resto da banda que o acompanha atualmente) é seguramente o mesmo, tornando-se fundamental para que o estilo de Morrissey sobreviva por tanto tempo sem apelar para mudanças dramáticas em sua sonoridade.

Sinceramente, eu espero que Years of Refusal não seja o último álbum de Morrissey, antes de seu anunciado ostracismo. Mas se for, ao menos ele terá deixado o showbizz de forma digna, com um trabalho à altura do que sua carreira representa e da sua influência na música pop. E quando isso ocorrer, então teremos motivos de sobra para nos sentirmos realmente tristes.

13 de mar. de 2009

U2: No Line On The Horizon

Após cinco anos desde seu último trabalho inédito (How To Dismantle An Atomic Bomb, 2004) eis que os irlandeses do U2 lançam o seu 12º álbum de estúdio: No Line On The Horizon (Universal, 2009) e a observação mais evidente é que a banda saiu em busca de uma nova sonoridade, desta vez destacando-se pelos arranjos etéreos, camadas e camadas de teclados e guitarras que permeiam a produção e que lembram, num primeiro momento, a trilha sonora do filme The Million Dollar Hotel (2000) ou à "falsa trilha" de Passengers (1995). Não por acaso, em ambas foi evidente a influência de Brian Eno e Daniel Lanois, produtores usuais da banda desde The Unforgettable Fire (1985). Nesta nova busca, contudo, percebe-se aqui e ali traços de distintas fases da banda, o que pode ser explicado também pela mão de Steve Lillywhite, outro colaborador de longa data.


A faixa-título abre o CD exatamente com essas camadas de teclados e guitarras com efeito phaser, e nos apresenta um refrão poderoso que poderia desbancar facilmente a escolha de "Get On Your Boots" como primeiro single. Sua pungência e intensidade crescente são as mesmas que se sente em "Where The Streets Have No Name", que abria o The Joshua Tree (1987), ou em "Zooropa", a primeira faixa do álbum homônimo de 1993. Uma música perfeita para iniciar o novo disco e, quem sabe, os shows da próxima turnê.

A introdução quase techno de "Magnificent" (com direito a um teclado à la Depeche Mode) continua a dar o tom do trabalho. Mas não se enganem pelas aparências iniciais. O que se ouve a seguir é o velho e bom estilo de composição do U2. E no caso de "Magnificent" ele remete muito aos primeiros trabalhos da banda nos anos 80. Tanto na construção métrica da música quanto na letra - que é uma verdadeira doxologia (I was born to sing for you/I didn't have a choice but to lift you up). Não vejo outro sentido para as palavras do Bono nela; ele não escrevia algo assim tão explícito sobre o assunto espiritualidade desde "Gloria", de October (1981). E ele mesmo confirmou isso na entrevista para a revista Rolling Stone: "Há esse tema recorrente de rendição e devoção e todas essas coisas que acho realmente difíceis.Toda música para mim é algum tipo de louvor".

"Moment Of Surrender" surge como o momento épico do disco: uma balada de sete minutos em forma de hino com vocais flertando com o gospel num refrão apoteótico e com um final cujos "oh-oh-oh-ohs" não ficarão devendo nada aos de "Pride (In The Name Of Love)" quando apresentada ao vivo. Percebam que ela soa como uma continuação de "So Cruel", do Achtung Baby (1991). Reparem na mesma cadência e tensão que ambas transmitem - aquele clima envolvente e pesado por causa do tema da letra. Brian Eno explica que nessa música o personagem na voz de Bono, está com o coração quebrantado, sofrendo de uma terrível agonia e extremamente vulnerável. Ainda reforçando a comparação, ambas são construídas sobre um instrumental repetitivo, possuem um crescendo no decorrer da música e compartilham de refrões carregados de melancolia. (Ouçam as duas e comprovem!) A letra lembra também outra música igualmente "angustiante" da banda: "If God Will Send His Angels", do Pop (1997). A principal diferença fica por conta da harmonia de coral do refrão de "Moment..." que parece transmitir certa redenção (como o próprio título diz) e esperança para o tal personagem da canção. E, de quebra, The Edge nos presenteia com um maravilhoso solo feito com um punhado de notas apenas!

Por falar no guitarrista, seus tradicionais acordes econômicos aparecem de volta em "Unknown Caller". Com um início minimalista dos instrumentos, o vocal dá a dica que se trata de um lento amanhecer (Sunshine, sunshine) que finalmente ocorre com a entrada do dedilhado mais alto da guitarra. Na letra, um assunto recorrente para o Bono: o esforço em escutar a voz de Deus. Com essa música, o que poderíamos chamar de "primeiro ato" do disco - aquele em que eles mais exploram novos horizontes sonoros - se encerra de forma contundente.

"I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" é certamente a canção mais pop do disco. Brilhantemente pop! Alguns podem até dizer que é uma canção tola, mas ela está ali prá mostrar que rock também é diversão e que o U2 ainda está em plena forma quando se trata de compor deliciosas melodias de amor. Seu arranjo também é, de todas as músicas novas, o que mais se parece com a retomada ao som básico da banda ocorrida no disco de 2000, All That You Can't Leave Behind.

Nas duas faixas seguintes, os riffs pesados de "Get On Your Boots" e "Stand Up Comedy" apontam para um rock mais cru e moderno, mas com influências bem diferentes. Diante do álbum como um todo é que se entende porque "Get On Your Boots" foi escolhida como primeiro single. Ela está meio deslocada ali... quase fazendo uma ligação com "Vertigo", o primeiro single do disco anterior - em especial o riff "Zeppeliano" marcante, as estrofes quase "faladas" de Bono, as poucas intervenções da guitarra durante elas, e por fim um refrão radiofônico - sem esquecer a "quebrada" genial da parte Let me in the sound, que fará a ligação com "FEZ-Being Born" mais adiante.

Já "Stand Up Comedy" revisita o groove sessentista da guitarra de Jimmi Hendrix com bastante autoridade. A letra revela que Bono não perdeu a inspiração para fazer canções engajadas socialmente, desta vez convocando todos a defenderem seus ideais, mesmo quando se sentirem desmotivados, num sutil trocadilho com o estilo de comédia comum nos EUA onde o artista está sozinho em pé, frente a platéia, quase que acuado pela sua própria tarefa a realizar: Out from under your beds/C’mon ye people/Stand up for your love!

Muito se comentou pela mídia que haveriam influências de sonoridades orientais neste álbum. De fato, o U2 encontra o Marrocos em "FEZ-Being Born", mas de forma muito sutil. A música toda é contornada pelo inconfundível estilo do Edge, notas esparsas carregadas de efeitos chorus e delay, enquanto Adam Clayton e Larry Mullen Jr. conduzem, de forma quase marcial, baixo e bateria. Os poucos versos cantandos (às vezes em côro) versam sobre um tema "estradeiro". E funcionam perfeitamente com o clima de road song que ela transmite.

"White As Snow" e "Cedars Of Lebanon" são os exemplos mais evidentes da semelhança com The Million Dollar Hotel e Passengers, e poderiam ter saído das sessões de gravação destes discos tranquilamente. A melodia do hino cristão "Ó Vem, Emanuel!" (baseado em um antigo canto gregoriano do século XV) serve de base para "White As Snow" e o seu arranjo delicado, mas correto, impõe uma incrível carga emocional para a letra que Bono fez sobre a guerra no Afeganistão. "Cedars..." também compartilha do mesmo tema, mas é uma canção em cujas estrofes não há melodia. Bono apenas conversa com o ouvinte, na pele de um correspondente de guerra. Apesar da letra triste e profunda (Choose your enemies carefully, 'cause they will define you/Make them interesting, 'cause in some ways they will mind you/They're not there in the beginning, but when your story ends/Gonna last with you longer than your friends), musicalmente ela acaba sendo a menos interessante deste trabalho.

"Breath" não é a última música do álbum, mas deixei prá falar dela no final porque essa canção me intriga muito. Há alguma coisa nela que me incomoda - talvez os vocais "cuspidos" por Bono nas estrofes - mas ao mesmo tempo há também uma grandiosidade velada no seu arranjo - do ritmo tribal da bateria no início, passando pelo riff simples mas eficaz da guitarra e especialmente no refrão que desafa I can breathe! Ou então no maravilhoso trecho da letra que diz: We are people borne of sound. Yes, Bono, we are!

Afinal, No Line On The Horizon traz alguma novidade para a discografia do U2? Sim. E embora não represente exatamente uma "revolução" ou "ousadia" na sonoridade da banda, como fizeram em outras épocas suas obras-primas The Joshua Tree e Achtung Baby, ele se mostra mais como uma evolução dos últimos álbuns, pontuada pela experiência adquirida em seus mais de trinta anos de carreira. Um amadurecimento das propostas musicais deles para os anos 2000s. Neste contexto, sim, ele pode ser considerado o melhor disco do U2 na década. E superar a si mesmo já é meio caminho andado para assegurar mais uma vez o posto de melhor banda do planeta.

31 de dez. de 2008

O melhor de 2008

Chega o final do ano e, como de praxe, saem diversas listas dos "melhores" discos lançados. Um resumo bem legal do que as revistas e sites especializados elegeram como o melhor do pop/rock/alternativo/indie em 2008 foi feito pelo blog Rock On e eu reproduzo abaixo.


Q
50 albums de 2008

10. Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus Dig!!!
9. The Raconteurs - Consolers Of The Lonely
8. Elbow - The Seldom Seen Kid
7. TV On The Radio - Dear Science
6. Duffy - Rockferry
5. Glasvegas - Glasvegas
4. Vampire Weekend - Vampire Weekend
3. Coldplay - Viva La Vida Or Death And All His Friends
2. Fleet Foxes - Fleet Foxes
1. Kings Of Leon - Only by the Night


Uncut
50 albums de 2008

10. Paul Weller - 22 Dreams
9. Kings Of Leon - Only by the Night
8. Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus Dig!!!
7. Neon Neon - Stainless Style
6. Elbow - The Seldom Seen Kid
5. Vampire Weekend - Vampire Weekend
4. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
3. TV On The Radio - Dear Science
2. Fleet Foxes - Fleet Foxes
1. Portishead - Third


Paste
50 albums de 2008

10. Deerhunter - Microcastle
9. Lucinda Williams - Little Honey
8. Sun Kil Moon - April (part1 part2)
7. Girl Talk - Feed the Animals
6. Fleet Foxes - Fleet Foxes
5. Okkervil River - The Stand Ins
4. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
3. Vampire Weekend - Vampire Weekend
2. Sigur Rós - Med sud i eyrum vid spilum endalaust
1. She & Him - Volume One


Rolling Stone
50 albums de 2008

10. Vampire Weekend - Vampire Weekend
9. Metallica - Death Magnetic
8. Beck - Modern Guilt
7. Coldplay - Viva La Vida Or Death And All His Friends
6. Santogold - Santogold
5. John Mellencamp - Life, Death, Love & Freedom
4. My Morning Jacket - Evil Urges
3. Lil Wayne - Tha Carter III
2. Bob Dylan - Tell Tale Signs:The Bootleg Series Vol. 8 (part1 part2 part3)
1. TV on the Radio - Dear Science


NME
50 albums de 2008

10. Friendly Fires - Friendly Fires
9. Kings Of Leon - Only By The Night
8. Mystery Jets - Twenty One
7. Santogold - Santogold
6. Metronomy - Nights Out
5. Foals - Antidotes
4. Vampire Weekend - Vampire Weekend
3. Glasvegas - Glasvegas
2. TV On The Radio - Dear Science
1. MGMT - Oracular Spectacular


Mojo
50 albums de 2008

10. Neil Diamond - Home Before Dark
9. The Bug - London Zoo
8. The Week That Was - The Week That Was
7. Glasvegas - Glasvegas
6. The Hold Steady - Stay Positive
5. Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus Dig!!!
4. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
3. Paul Weller - 22 Dreams
2. The Last Shadow Puppets - The Age of the Understatement
1. Fleet Foxes - Fleet Foxes


Spin
40 albums de 2008

10. MGMT - Oracular Spectacular
9. Coldplay - Viva La Vida Or Death And All His Friends
8. Hot Chip - Made In The Dark
7. Deerhunter - Microcastle
6. Santogold - Santogold
5. Fleet Foxes - Fleet Foxes
4. Fucked Up - The Chemistry Of Common Life
3. Portishead - Third
2. Lil Wayne - Tha Carter III
1. TV On The Radio - Dear Science


Blender
33 albums de 2008

10. Fall Out Boy - Folie A Deux
9. Vampire Weekend - Vampire Weekend
8. Randy Newman - Harps And Angels
7. Of Montreal - Skeletal Lamping
6. Robyn - Robyn
5. Hot Chip - Made In The Dark
4. Metallica - Death Magnetic
3. TV On The Radio - Dear Science
2. Girl Talk - Feed the Animals
1. Lil' Wayne - Tha Carter III


Filter
10 albums de 2008

10. The Dears - Missiles
9. Cut Copy - In Ghost Colors (part1 part2)
8. M83 - Saturdays = Youth
7. She and Him - Volume One
6. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
5. Foals - Antidotes
4. TV On The Radio - Dear Science
3. Dr. Dog - Fate
2. Fleet Foxes - Fleet Foxes
1. MGMT- Oracular Spectacular


Last.fm
10 albums de 2008

10. Med sud i eyrum vid spilum endalaust - Sigur Rós
9. Sleep Through The Static - Jack Johnson
8. Made In The Dark – Hot Chip
7. Narrow Stairs - Death Cab For Cutie
6. Konk – The Kooks
5. We Started Nothing – The Ting Tings
4. Ghosts I-IV (I-II-III-IV) – Nine Inch Nails
3. Third - Portishead
2. Oracular Spectacular - MGMT
1. Viva La Vida Or Death And All His Friends - Coldplay


iTunes
5 albums de 2008

5. Sara Bareilles - Little Voice
4. Lil Wayne - Tha Carter III
3. Juno - Soundtrack
2. Jack Johnson - Sleep Through The Static
1. Coldplay - Viva La Vida Or Death And All His Friends


Particularmente, senti falta de vários discos nestes Top 10, por isso resolvi eleger também os meus 10 melhores lançamentos do ano para corrigir algumas falhas. E também porque muitas das novidades que aparecem acima - Fleet Foxes, TV on the Radio, Bon Iver, Deerhunter... - simplesmente não me despertaram tanto interesse assim e cederam lugar facilmente a outras bandas com mais "tempo de estrada", como o R.E.M. e o seu quase impecável Accelerate. As exceções ficam por conta do interessante Vampire Weekend e do excelente disco do Little Joy, parceria entre o ex-Hermanos Rodrigo Amarante, e do baterista do Strokes, Fabrizio Moretti.

Sendo assim, eis o meu Top 10 (listados em ordem alfabética):

Accelerate (R.E.M.)
Baboon Strength (Charlie Hunter)
Consolers Of The Lonely (The Raconteurs)
Forth (The Verve)
Little Joy (Little Joy)
Lucky (Nada Surf)
Only By The Night (Kings Of Leon)
Vampire Weekend (Vampire Weekend)
Viva La Vida or Death and All His Friends (Coldplay)
Warpaint (The Black Crowes)

Que, como de praxe também, pode ser que esteja diferente daqui a alguns meses... ;-)

FELIZ 2009!

11 de dez. de 2008

A Love Supreme (I): Bono & John Coltrane

"So I'm back in my hotel room
With John Coltrane and the Love Supreme."

(U2, Bullet The Blue Sky)


Após uma espera de 6 anos (!) - que pode ser comprovada por este antigo post do blog - a editora Barracuda finalmente editou no Brasil o A Love Supreme: A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane, que eu comecei a ler este mês. O livro foi escrito pelo ótimo jornalista musical Ashley Kahn, que também é autor do Kind of Blue – A História da Obra-prima de Miles Davis - o qual recomendo a leitura igualmente.

Bom, a minha relação com este que é considerado um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos, surgiu ao ouvir o Bono, do U2, citá-lo na versão da música "Bullet The Blue Sky" que está no disco Rattle And Hum, de 1988. Desde então, sempre tive curiosidade de escutá-lo, mas numa época em que ainda não haviam mp3s, muito menos com a facilidade de encontrá-los na internet, tive que esperar um bom tempo até conseguir comprar um CD importado de A Love Supreme, isto há cerca de uns doze anos atrás.

Eu era completamente leigo quanto ao jazz, e da importância de Coltrane para a música norte-americana. Porém, após duas ou três audições do CD, fiquei incrivelmente convencido da genialidade, da profundidade, da relevância daquela obra-prima. E principalmente, do motivo porque Bono citava ela em uma música de um disco que tem por background a América: era a espiritualidade que permeava todo o trabalho do saxofonista, com a mesma intensidade que Bono imprime às canções do U2, em especial no The Joshua Tree, a obra-prima do U2 lançada em 1987.

E a prova dessa relação entre Bono e Coltrane, é citada logo na introdução do livro de Kahn, num depoimento enviado ao autor, através de email em 3 de novembro de 2001, exemplificando a influência do disco clássico sobre a música em geral, inclusive o rock:

"Bono, vocalista do U2, conta uma história através da qual consegui uma explicação atual para o apelo universal de Coltrane – e do álbum:

'Eu estava na cobertura do Grand Hotel em Chicago [na turnê de 1987] ouvindo A Love Supreme e aprendendo uma lição para toda a vida. Pouco antes, estava vendo televangelistas recriarem Deus à sua própria imagem: pequenos, mesquinhos e gananciosos. A religião se tornou uma inimiga de Deus, pensei... a religião foi o que veio quando Deus, assim como Elvis, deixou o recinto. Sei bem, desde que me conheço por gente, que o mundo se encaminhava em uma direção longe do amor, e eu também me deixava levar por isso. Existe muita maldade nesse mundo, mas a beleza é o nosso prêmio de consolação... a beleza da voz rouca de John Coltrane, seus sussurros, sua sabedoria, sua sexualidade dissimulada, seu louvor à criação. E assim Coltrane passou a fazer sentido para mim. Deixei o disco no modo de repetição e fiquei acordado ouvindo um homem encarar Deus com o dom de sua música.'" (p. 23)


Para algumas pessoas esse trecho do livro pode ser apenas uma mera curiosidade. Para mim foi muito revelador, pois considero que A Love Supreme está para John Coltrane assim como The Joshua Tree está para o U2. São discos que representam fielmente seus criadores, são a essência deles, se confundem com eles. E ambos estão na minha lista de TOP 5 discos essenciais.

Não canso de repetir: quem tiver acesso a esse disco, ouça! Pode soar "estranho" pela primeira vez a quem não está acostumado ao jazz, especialmente ao estilo de Coltrane, mas com o tempo se consegue perceber a beleza dessa suíte composta em louvor e gratidão a Deus.

Mais detalhes sobre o livro num próximo post!

11 de nov. de 2008

R.E.M. - Estádio do São José - 06/11/2008


Por fim eu pude conferir ao vivo uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos, e que apesar dos seus mais de 25 anos de carreira, figura entre os poucos "sobreviventes" do guitar rock dos anos 80 que ainda está em plena atividade - e não apenas da exploração seus antigos sucessos. O R.E.M. subiu no palco montado sobre o gramado do estádio do São José (o Zequinha Stadium, como ficará conhecido a partir de agora), pontualmente às 22h da quinta-feira passada, após a abertura da banda gaúcha Nenhum de Nós.

Sem bajulação, Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e os músicos de apoio apresentaram um dos melhores shows do ano em Porto Alegre. Combinando com o mais recente CD deles, Accelarate, o set list deu preferência para as músicas mais "pegadas" da banda - do disco Monster, por exemplo, entraram três, sendo que "Let Me In" recebeu uma linda versão, num momento "roda de violão" dos músicos no palco. Da fase mais antiga, "Cuyahoga" rendeu outro momento muito bonito. Até mesmo uma improvável "Ignoreland", do Automatic For The People, foi tocada. Mas é claro que os hits mais conhecidos da banda estiveram presentes também: "The One I Love", "It's The End Of The World...", "Losing My Religion", "Everybody Hurts", "Man On The Moon", "Imitation Of Life" e o mais recente, "Supernatural Superserious".

Michael Stipe demonstrou muito carisma no palco, com total controle do espetáculo. Sem falar do entusiasmo demonstado por ele devido a vitória de Barack Obama - foi o primeiro show da banda após a eleição presidencial norte-americana e eles não deixaram a galera esquecer a importância desse fato. O som no "Zequinha Stadium" estava ótimo também, dando prá entender perfeitamente tudo o que ele falou. Peter Buck, apesar da presença mais discreta no palco, executou com precisão os riffs que tão bem caracterizam as músicas do R.E.M. E no final, o baixista e tecladista Mike Mills, último a sair do palco, vestido com a camiseta da seleção brasileira, agitou uma grande bandeira do Brasil em uma melancólica despedida ao show de 2h de duração.

Posso me dar por satisfeito por já ter assistido ao vivo as duas melhores bandas do planeta em atividade (U2, em 2006, e agora, R.E.M.). Mas é certo que uma vez apenas ainda é pouco. Já estou com saudades.

18 de ago. de 2008

David Byrne & Brian Eno

Ouça o novo trabalho dos caras aqui!

28 de jul. de 2008

O filme do ano?

Nos últimos tempos, poucos filmes fizeram por merecer o hype criado em torno deles antes do seu lançamento. Batman, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) consegue se incluir nesse grupo tranqüilamente. A obra de Christopher Nolan, não apenas mantém o nível do primeiro filme, Batman Begins, como o supera em diversos aspectos (desenvolvimento do roteiro, desempenho do elenco, caracterização dos personagens e seus conflitos).

O grande mérito, muitos dirão com razão, foi devido a introdução do rival mais insano e perigoso do homem-morcego: o Coringa. Não apenas por causa do personagem, mas pela correta escolha do ator. Interpretado com precisão por Heath Ledger (falecido em janeiro deste ano por uma overdose de medicamentos), o Coringa é bem mais psicótico e emblemático que aquele palhaço evasivo criado por Jack Nicholson na versão de Tim Burton. Capaz de causar um desconforto no público cada vez que entra em cena; a cada momento em que ele surge, paira no ar a expectativa de que algo terrivelmente ruim vai acontecer. E mesmo quando se encontra aparentemente subjugado, essa sensação não se desfaz. Despertando, como o próprio Coringa deseja, o nosso pavor ante ao caos que ele está sempre prestes a desencadear.

Já o Bruce Wayne/Batman de Christian Bale, mesmo explorando seu lado mais sombrio e questionador - ao colocar em dúvida seu papel de "justiceiro acima-da-lei" -, não chega a transmitir a mesma impressão, sendo muitas vezes ofuscado pela performance de Ledger e do outro personagem apresentado na trama, o promotor Harvey Dent/Duas-Caras, de Aaron Eckart. Como consolo para o herói, restam as ótimas cenas de ação, em especial aquelas em que ele realiza vôos de tirar o fôlego ou na perseguição muito bem filmada pelas ruas de Gotham City.

A longa duração do filme não chega a compromter o resultado, nem mesmo a pequena queda de ritmo que ocorre na última meia hora, quando surge o Duas-Caras. Este é definitivamente um filme do Coringa, desde a cena em que se apresenta numa reunião de mafiosos até seu embate final contra o Batman. Resenhas e bilheterias até o momento, dão conta de que críticos e público já elegeram O Cavaleiro das Trevas o melhor filme do ano. Eu vou mais além e considero como uma das melhores adaptações de HQs de heróis já realizada. Imperdível.