Se você não assisitu ainda ao filme Minority Report, de Steven Spielberg, sugiro que não prossiga na leitura deste texto, a fim de não estragar as surpresas reservadas no enredo do mesmo.
Prá começar, são quase duas histórias diferentes. Pré-crime, John Anderton, Witwer, os precogs e o próprio relatório da minoria (o tal minority report que todos se perguntam que diabos é, e por que não traduziram no título...) estão lá, mas com papéis levemente modificados ou graus de importância totalmente invertidos. Spielberg tomou liberdade tal ao narrar seu misto de ficção científica a história policial, que o recheou de tramas paralelas, a fim de nos mostrar a sua própria visão de um futuro que traz ao mesmo tempo uma solução (semi) perfeita (o pré-crime), e sua conseqüência não exatamente ideal, mas necessária (a perda da privacidade). De fato, se ele tivesse se mantido fiel ao conto de 50 páginas de Dick, o filme não duraria mais de uma hora e provavelmente toda a parafernália de efeitos especiais e gadgets que tanto adoramos ver, não teriam lugar.
O que incomoda mais é saber que a idéia principal do conto, embora mantida em algum lugar do filme, dá espaço a um enredo mais intricado, uma mistura de Agatha Christie e Dashiell Hammet, para no final das contas, colocar em cheque essa tal organização capaz de apontar assassinos e suas vítimas, antes mesmo que estes crimes possam acontecer. Mas, se eles ainda não o cometeram, seriam realmente culpados?
A trama se baseia no fato sumamente importante de que o personagem John Anderton, responsável pela organização pré-crime e seu prinicipal defensor, ao descobrir que irá assassinar um homem do qual ele não faz a mínima idéia quem seja, tenta alterar o seu próprio futuro e provar sua inocência. Mesmo que, neste caso, ficasse claro que o sistema era imperfeito. Um conflito entre o interesse individual - o da sobrevivência - contra o coletivo - o da confiabilidade num sistema que já havia encarcerado centenas de homens, supostamente inocentes. Quem ler o conto de Dick, notará que é justamente o relatório da minoria que revelará aos envolvidos na história essa falha na incontestável validade da organização. Sendo três os videntes que anunciam o assassinato a ocorrer, quando havia uma diferença nas visões do futuro de um deles, este relatório era gerado.
Resumindo, o grande mote da trama, e praticamente inexplorado no roteiro do filme, é justamente este "acesso aos dados" que Anderton teve. Se realmente existissem pessoas capazes de prever o futuro, o pré-crime seria uma solução adequada, desde que os criminosos potenciais não tivessem essa informação. Do contrário. eles poderiam desistir do crime e ver-se livres da condenação.
Complicado? Pode ser... Mas neste ponto, o conto é bem mais esclarecedor que o filme, sem dúvida. E nos deixa refletindo na responsabilidade das pessoas que possuem esse tipo informação. Não deveriam elas sempre notificar o criminoso para que ele mude de idéia? Dar a chance a ele de ter o seu próprio relatório da minoria?
O filme, de qualquer forma, vale a pena ser conferido e é, na minha opinião, um dos melhores do ano.

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